Por Leila Cangussu
O Brasil chega a fevereiro de 2026 acumulando uma longa lista de crimes graves que atravessaram anos, governos e ciclos econômicos sob impunidade penal proporcional aos danos causados. Em diferentes áreas, como crimes ambientais, financeiros, raciais, trabalhistas e de violência cotidiana, o sistema de Justiça produziu investigações extensas, acordos financeiros e disputas processuais, mas raramente alcançou os núcleos de poder responsáveis pelas decisões que levaram às tragédias.
Esta linha do tempo reúne casos emblemáticos organizados de forma retroativa, do presente ao passado, a partir de seus contextos, impactos e situação judicial.
2026
O início de 2026 é marcado pela permanência de ações judiciais relevantes em fase de instrução, recursos ou aguardando julgamento. Em diferentes áreas, como a criminal, ambiental e econômica, a lentidão processual e a fragmentação das responsabilidades mantêm em aberto casos que produziram mortes, deslocamentos forçados e prejuízos coletivos expressivos.
Caso Orelha, em Florianópolis
A morte do cão comunitário Orelha gerou ampla comoção nacional e intensa mobilização social. As investigações apontaram violência extrema, mas a responsabilização ficou restrita a um adolescente, com pedido de internação provisória.
A condução do inquérito foi questionada por juristas e entidades de proteção animal, especialmente pela ausência de responsabilização de adultos citados em depoimentos e registros audiovisuais. O caso evidenciou limites da persecução penal em episódios de grande repercussão pública, mas com responsabilização seletiva.
2025
Caso Banco Master
O caso do Banco Master revelou operações financeiras de alto risco, uso de brechas regulatórias e um rombo bilionário que afetou investidores, trabalhadores e a economia local. A instituição operava com aparência de regularidade, enquanto acumulava práticas pouco transparentes.
Quando as irregularidades vieram à tona, o custo foi socializado. Pequenos investidores e trabalhadores absorveram as perdas, enquanto dirigentes e grandes acionistas negociaram acordos e estratégias jurídicas. Até 2026, o caso não resultou em punições penais exemplares.
2024
Enchentes no Rio Grande do Sul
As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 foram classificadas por estudos técnicos como o maior desastre natural da história do estado. Mais de 180 pessoas morreram, milhões foram afetadas e cidades inteiras ficaram submersas.
Relatórios elaborados desde ao menos 2015 já alertavam para o risco de eventos extremos, a necessidade de manutenção de diques e a inadequação do modelo de ocupação urbana. Após o desastre, estudos oficiais apontaram que parte significativa dos danos foi agravada por omissões do poder público. Apesar disso, até 2026, não houve responsabilização política ou administrativa.
Caso Porsche, em São Paulo
O caso envolve um motorista de Porsche que matou um trabalhador em um acidente de trânsito, sob efeito de álcool e em alta velocidade. Desde o início, o processo foi marcado por decisões judiciais oscilantes, debates sobre dolo eventual e sucessivos pedidos de liberdade.
O julgamento pelo Tribunal do Júri foi adiado mais de uma vez. Até fevereiro de 2026, não havia sentença definitiva. O caso passou a ser citado em debates públicos como exemplo da dificuldade de responsabilização penal em crimes de trânsito quando o réu pertence às camadas mais altas da sociedade.
2023
Caso Americanas
A crise da Americanas veio a público em janeiro de 2023, com a revelação de inconsistências bilionárias nos balanços da empresa. Investigações indicaram que práticas contábeis irregulares vinham sendo adotadas há anos, com alertas feitos ao conselho fiscal e a instâncias de controle.
O impacto foi sistêmico: ações despencaram, fornecedores ficaram sem receber e milhares de trabalhadores foram afetados. Apesar da abertura de investigações administrativas e criminais, os processos avançaram lentamente. Até fevereiro de 2026, não havia condenações criminais definitivas dos principais executivos envolvidos.
2020
Caso Miguel, em Recife
Em junho de 2020, Miguel, de cinco anos, morreu ao cair do nono andar de um prédio de luxo em Recife. O menino estava sob responsabilidade da então patroa de sua mãe, Sarí Corte Real, enquanto Mirtes Renata trabalhava como empregada doméstica.
Sarí respondeu ao processo em liberdade. Em 2022, foi condenada por abandono de incapaz com resultado morte, com pena posteriormente reduzida. Em 2026, seguia solta, enquanto a família da criança continuava em busca de justiça. O caso se tornou um retrato da interseção entre racismo, privilégio de classe e seletividade penal.
2019
Brumadinho, em Minas Gerais
O rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, em janeiro de 2019, matou 272 pessoas e causou destruição ambiental e social em larga escala. Investigações apontaram que havia laudos técnicos indicando risco iminente de colapso, mesmo assim ignorados.
Apesar de denúncias criminais e acordos bilionários, nenhum grande executivo foi condenado criminalmente até 2026. O caso se tornou símbolo de como crimes corporativos de grande escala são convertidos em negociações financeiras, enquanto a responsabilização penal se dilui com o tempo.
2018
Braskem e o afundamento de Maceió
Durante décadas, a exploração de sal-gema pela Braskem provocou instabilidade geológica no subsolo de Maceió. O resultado foi o afundamento de bairros inteiros, rachaduras em imóveis e a expulsão de cerca de 60 mil pessoas de suas casas.
Relatórios técnicos já apontavam riscos estruturais graves antes da intensificação do desastre. Mesmo assim, a exploração continuou. Anos depois, novos laudos confirmaram a relação direta entre a mineração e o colapso urbano. Houve acordos bilionários e indenizações, mas até 2026 não houve condenações criminais de executivos.
2015
Mariana, em Minas Gerais
O rompimento da barragem da Samarco, controlada por Vale e BHP, em novembro de 2015, matou 19 pessoas e devastou a bacia do Rio Doce por mais de 600 quilômetros. Relatórios técnicos anteriores já alertavam para falhas estruturais graves na barragem.
Após o desastre, o caso foi judicializado em múltiplas frentes, no Brasil e no exterior. Foram criadas fundações, firmados acordos e estabelecidos processos de reparação lentos e burocráticos. Mais de dez anos depois, não houve prisão nem condenação criminal exemplar de executivos no Brasil.
1997
Caso Galdino Pataxó
Em 1997, o indígena Galdino Pataxó foi queimado vivo em Brasília por jovens de classe média alta. O crime chocou o país e expôs o racismo estrutural e a violência contra povos indígenas.
Apesar da repercussão, as punições foram brandas e os envolvidos seguiram suas vidas sem consequências proporcionais à gravidade do crime. O caso permanece como símbolo da naturalização da violência racial e da proteção institucional a determinados grupos sociais.

1992
Massacre do Carandiru, em São Paulo
Em 2 de outubro de 1992, a Polícia Militar invadiu o Complexo Penitenciário do Carandiru para conter uma rebelião. A operação resultou na morte de 111 presos. Laudos periciais e testemunhos indicaram execuções após rendição.
O processo judicial se arrastou por décadas. Em 2013, policiais foram condenados em primeira instância, mas todas as condenações foram anuladas em 2016 pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Até hoje, não há condenações definitivas pelo massacre.
1979
Lei da Anistia
A Lei da Anistia, promulgada em agosto de 1979, perdoou crimes políticos e os chamados crimes conexos, interpretação que acabou por incluir agentes do Estado responsáveis por tortura, assassinatos e desaparecimentos forçados durante a ditadura militar.
Apesar de questionamentos jurídicos e condenações do Brasil em cortes internacionais, a lei segue em vigor e sua interpretação permanece como um dos principais obstáculos à responsabilização penal por crimes do regime.
1964–1985
Ditadura militar
O período da ditadura militar no Brasil foi marcado por repressão política institucionalizada, com prisões ilegais, tortura, execuções e desaparecimentos forçados conduzidos por órgãos do Estado.
A ausência de responsabilização penal após a redemocratização estabeleceu um precedente histórico que atravessou décadas e influenciou a forma como o sistema de Justiça brasileiro lida com crimes cometidos por seus próprios agentes.
Casos sem responsabilização no Brasil (situação até fevereiro de 2026)
| Ano / Período | Caso | O que aconteceu | Impacto principal | Situação judicial até 2026 |
|---|---|---|---|---|
| 2026 | Caso Orelha (SC) | Cão comunitário foi morto com extrema violência em Florianópolis. | Comoção nacional e debate sobre violência e seletividade penal. | Responsabilização restrita a um adolescente; investigação contestada por juristas e entidades. |
| 2025 | Caso Banco Master | Operações financeiras de alto risco e rombo bilionário vieram a público. | Prejuízo a investidores, trabalhadores e economia local. | Sem punições penais exemplares; desdobramentos administrativos e negociações em curso. |
| 2024 | Enchentes no Rio Grande do Sul | Chuvas extremas provocaram colapso urbano em dezenas de cidades. | Mais de 180 mortos, milhões de afetados e destruição de infraestrutura. | Sem responsabilização política ou administrativa direta, apesar de alertas prévios documentados. |
| 2024–2026 | Caso Porsche (SP) | Motorista embriagado e em alta velocidade matou um trabalhador em acidente de trânsito. | 1 morto e debate público sobre crimes de trânsito e desigualdade penal. | Processo em curso; júri popular ainda não realizado; decisões judiciais oscilantes. |
| 2023–2026 | Caso Americanas | Revelação de inconsistências bilionárias nos balanços da empresa. | Prejuízo sistêmico a investidores, fornecedores e trabalhadores. | Investigações em andamento; nenhuma condenação criminal definitiva de executivos. |
| 2020–2026 | Caso Miguel (PE) | Criança morreu após cair do nono andar enquanto estava sob responsabilidade da patroa da mãe. | Debate nacional sobre racismo, classe e trabalho doméstico. | Condenação por abandono de incapaz com pena reduzida; ré segue em liberdade. |
| 2019 | Brumadinho (MG) | Rompimento de barragem da Vale matou 272 pessoas. | Maior desastre de trabalho da história do país; danos ambientais duradouros. | Processos penais em andamento; sem condenações definitivas do núcleo decisório. |
| 2018–2026 | Braskem em Maceió (AL) | Mineração de sal-gema provocou afundamento de bairros inteiros. | Cerca de 60 mil pessoas deslocadas e colapso urbano permanente. | Acordos financeiros firmados; nenhuma condenação criminal de executivos. |
| 2015–2026 | Mariana (MG) | Rompimento da barragem da Samarco devastou a bacia do Rio Doce. | 19 mortos e destruição ambiental em larga escala. | Mais de 10 anos depois, sem condenações criminais de executivos no Brasil. |
| 1997 | Caso Galdino Pataxó | Indígena foi queimado vivo por jovens de classe média alta em Brasília. | Símbolo da violência racial contra povos indígenas. | Punições brandas e desproporcionais; nenhum efeito penal duradouro. |
| 1992 | Massacre do Carandiru (SP) | Polícia Militar matou 111 presos durante intervenção em presídio. | Um dos maiores massacres da história recente do país. | Condenações anuladas em 2016; nenhum agente punido definitivamente. |
| 1979 | Lei da Anistia | Lei perdoou crimes cometidos durante a ditadura militar. | Bloqueio da responsabilização por tortura, assassinatos e desaparecimentos. | Lei segue em vigor; interpretação mantém impunidade de agentes do Estado. |
| 1964–1985 | Ditadura militar | Regime autoritário com repressão política sistemática. | Prisões ilegais, tortura, execuções e desaparecimentos forçados. | Nenhum agente responsabilizado criminalmente no Brasil após a redemocratização. |
Os casos listados envolvem naturezas distintas de crime — ambiental, econômico, estatal e individual —, mas compartilham um padrão comum: a ausência de responsabilização penal proporcional aos danos causados, mesmo diante de provas técnicas, investigações oficiais e ampla repercussão pública.
Um histórico de impunidade que permanece em aberto
Os casos reunidos nesta linha do tempo envolvem naturezas distintas de crime, ambiental, econômico, estatal e individual, mas compartilham um padrão comum: a ausência de responsabilização penal proporcional aos danos causados, mesmo diante de provas técnicas, investigações oficiais e ampla repercussão pública.
Organizados de forma retroativa, esses episódios mostram que a impunidade no Brasil não se limita a um período específico, a um tipo de crime ou a um único campo institucional. Ela atravessa décadas, governos, setores econômicos e diferentes esferas do Estado.
Da violência praticada sob custódia estatal no Carandiru aos crimes ambientais de Mariana e Brumadinho, do colapso urbano provocado pela mineração em Maceió às enchentes anunciadas no Rio Grande do Sul, das fraudes financeiras bilionárias aos crimes cotidianos que expõem desigualdades de classe e raça, o que se repete é a dificuldade de transformar investigações, laudos técnicos e processos judiciais em responsabilização penal efetiva.
Em fevereiro de 2026, muitos desses casos seguem em tramitação, aguardam julgamento ou tiveram suas condenações anuladas. Em outros, a resposta institucional se concentrou em acordos financeiros, medidas administrativas ou reparações parciais, sem alcançar os núcleos decisórios responsáveis pelas escolhas que produziram os danos.
A leitura conjunta desses episódios revela que a impunidade não é fruto apenas de falhas pontuais, mas de um arranjo estrutural que protege determinados interesses, administra conflitos e transforma crimes graves em burocracia negociável. Um pacto que não está escrito, mas se repete.
É esse padrão que será aprofundado no Pacto da Impunidade, aula magna aberta do ICL, que discute como poder econômico, proteção política e justiça seletiva operam para garantir que grandes crimes atravessem o tempo sem punição.





