Por Cleber Lourenço
As três principais pesquisas divulgadas nesta semana mostram uma eleição presidencial mais estável do que as oscilações de cada levantamento podem sugerir. Lula (PT) continua à frente de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), preserva seus principais redutos e não registra uma queda significativa no primeiro turno. A dificuldade aparece sobretudo no meio da pirâmide de renda, onde a vantagem do presidente diminui ou desaparece.
Na Quaest, Lula tem 36% das intenções de voto, contra 29% de Flávio. Na AtlasIntel/Bloomberg, são 43% a 37,4%. O Datafolha registra a menor distância: 39% a 35%.
As séries recentes ajudam a colocar esses números em perspectiva.
Na Quaest, Lula tinha 37% na rodada anterior e agora aparece com 36%. Flávio permaneceu em 29%. Na Atlas, Lula segue com 43%, enquanto Flávio passou de 34% para 37,4%. No Datafolha, o petista tinha 39% em agosto, oscilou para 38% no início de setembro e voltou a 39%; Flávio saiu de 33% em agosto para 35% agora.
Há, portanto, avanços pontuais de Flávio, especialmente na Atlas e no Datafolha, mas não uma mudança uniforme nas três pesquisas. Lula também não apresenta uma trajetória contínua de queda. O retrato mais consistente é de uma disputa estabilizada em patamar mais apertado do que o observado na eleição passada.

Redutos de Lula continuam resistentes
Essa estabilidade fica ainda mais clara quando se abre o Datafolha por grupos sociais.
Entre as mulheres, Lula tinha 41% em agosto e continua com 41%. Entre quem recebe até dois salários mínimos, passou de 46% para 47%. No Nordeste, permaneceu com 53%. Entre católicos, tinha 46% e voltou aos mesmos 46%.
São justamente alguns dos grupos nos quais Lula historicamente apresenta melhor desempenho. Até agora, não há sinal de uma debandada generalizada desse eleitorado.
Quaest e Atlas encontram uma estrutura semelhante na rodada atual.
Entre mulheres, Lula supera Flávio por 37% a 26% na Quaest e por 48% a 33,2% na Atlas. Entre católicos, são 41% a 26% na Quaest e 48,1% a 34,3% na Atlas. No Nordeste, a Atlas registra 53,3% para Lula e 32,2% para Flávio; no Datafolha, são 53% a 25%.
A religião também mostra uma divisão bastante consolidada. Se Lula lidera entre católicos, Flávio mantém vantagem expressiva entre evangélicos: 50% a 22% no Datafolha, 49,9% a 30,6% na Atlas e 42% a 22% na Quaest.
O quadro ajuda a explicar por que a piora na avaliação do governo não produziu uma queda proporcional na intenção de voto do presidente. Lula continua encontrando um piso eleitoral elevado nos grupos que formam o núcleo de sua base.
No meio da renda, a vantagem desaparece
A situação muda quando se chega aos estratos intermediários.
Os institutos não medem renda exatamente da mesma maneira. Datafolha e Quaest fazem entrevistas presenciais e apresentam faixas baseadas em salários mínimos. A Atlas utiliza recrutamento digital aleatório e divide a renda em intervalos menores, medidos em reais. Seu levantamento ouviu 5 mil pessoas entre 4 e 9 de setembro e tem margem de erro geral de um ponto percentual.
Por isso, os percentuais de uma pesquisa não devem ser comparados diretamente aos de outra como se representassem exatamente o mesmo grupo. O mais útil é observar o comportamento da renda dentro de cada levantamento.
No Datafolha, Lula tem 47% entre quem recebe até dois salários mínimos, contra 27% de Flávio. Na faixa de dois a cinco salários, a situação se inverte: Flávio chega a 42%, ante 31% de Lula.
É também nesse grupo que aparece um dos avanços recentes de Flávio. Na rodada anterior do Datafolha, ele tinha 38% entre os eleitores de dois a cinco salários, contra 32% de Lula. Agora são 42% a 31%. A diferença nominal aumentou de seis para 11 pontos.
Como a margem de erro dos subgrupos é maior, não é possível afirmar que cada ponto dessa oscilação represente uma transferência efetiva de votos. A série mostra, porém, que Lula não avançou nesse segmento enquanto Flávio cresceu numericamente.
Na Quaest, a distância também despenca quando se sobe na renda. Entre quem recebe até dois salários mínimos, Lula marca 49% e Flávio, 18%. Entre dois e cinco salários, há praticamente empate: Flávio tem 33% e Lula, 32%.
A Atlas usa outros cortes, mas encontra o mesmo gargalo no meio. Até R$ 2 mil, Lula tem 45,9%, contra 35,6% de Flávio. Entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, a vantagem cai para 47% a 42,9%. De R$ 3 mil a R$ 5 mil, desaparece: 39,6% para Lula e 39,9% para Flávio. Os cruzamentos estão no relatório de setembro do instituto.
Isso não significa que as três pesquisas mostrem uma migração recente da classe média para Flávio. Não há séries equivalentes de renda nos três institutos que permitam sustentar essa conclusão.
O que elas mostram com maior segurança é outra coisa: Lula consegue preservar uma vantagem expressiva na base da pirâmide, mas encontra uma disputa muito mais equilibrada quando chega ao eleitorado de renda intermediária.
No Datafolha, onde existe uma comparação recente disponível, esse segmento ainda apresentou avanço numérico de Flávio.
Lula segura o chão, mas encontra dificuldade para elevar o teto
Essa diferença ajuda a entender um aspecto aparentemente contraditório da eleição.
A popularidade de Lula atravessa um período ruim. Na Quaest, 43% aprovam seu trabalho e 50% desaprovam. Na Atlas, são 43,7% de aprovação e 53,8% de desaprovação. No Datafolha, 47% aprovam e 50% desaprovam.
Apesar disso, Lula continua liderando o primeiro turno nos três institutos e seus principais redutos apresentam pouca alteração.
A resistência desse eleitorado funciona como um piso. A dificuldade de ampliar a vantagem entre os segmentos intermediários ajuda a explicar o teto.
Isso também permite entender o crescimento recente de Flávio sem atribuí-lo automaticamente a uma migração em massa de eleitores lulistas. No Datafolha, por exemplo, Flávio avançou nacionalmente enquanto Lula permaneceu praticamente estável. Na Atlas, Lula ficou parado em 43% enquanto o adversário cresceu.
Ou seja, a aproximação pode ocorrer mesmo sem o esvaziamento dos redutos de Lula.
A rejeição reforça a existência de uma disputa equilibrada. No Datafolha, Lula e Flávio têm 46% cada. Na Quaest, são 53% para Lula e 55% para Flávio. Na Atlas, o presidente registra 52,5%, contra 49,6% do senador.
A diferença em relação a 2022 é relevante. Em setembro daquele ano, o Datafolha mostrava Lula com 45% contra 34% de Jair Bolsonaro (PL) no primeiro turno. A rejeição era de 39% para Lula e 51% para Bolsonaro.
Hoje, a vantagem de Lula sobre Flávio no mesmo instituto é de quatro pontos, e os dois têm a mesma rejeição.
É nesse sentido que a eleição de 2026 aparece mais apertada. Não porque as pesquisas desta semana tenham identificado uma virada repentina, mas porque a disputa se estabilizou num patamar de maior equilíbrio.
Lula mantém mulheres, eleitores de baixa renda, Nordeste e católicos como importantes pontos de sustentação. Flávio preserva força entre homens e evangélicos e encontra espaço para competir — e, em alguns levantamentos, liderar — entre parcelas de renda intermediária.
As pesquisas desta semana, portanto, recomendam menos atenção às oscilações isoladas e mais à estrutura que vem se repetindo. Lula continua com um chão eleitoral resistente, mas ainda encontra dificuldade para transformar essa base numa vantagem mais ampla. É nesse espaço, sobretudo no meio da pirâmide de renda, que a eleição permanece aberta.





