O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é quem vai dar a palavra final no “xadrez” de candidaturas ao governo e ao Senado que tomou conta de Santa Catarina após a migração e candidatura de Carlos Bolsonaro. Enquanto o filho do ex-presidente deixa a campanha a deriva para militar pela liberdade do pai, o campo progressista tenta se articular para uma campanha difícil diante da popularidade do governador Jorginho Mello e do seu discurso anti-PT e anti-Lula. A avaliação é de que Carlos Bolsonaro pode atrapalhar o jogo para a direta e abrir oportunidades para a esquerda no Estado.
O nome favorito dos petistas para qualquer cenário é o do presidente do Sebrae, Décio Lima. A princípio, não há um prazo definido para que Lula tome a decisão aguardada pela militância, mas nenhum passo será dado sem o aval dele. Estrategicamente, o PT precisa construir candidaturas fortes ao Senado e também montar bons palanques ao governo para replicarem seus feitos no horário eleitoral.
Décio foi o candidato ao governo em 2022 e chegou ao segundo turno, mas foi derrotado por Jorginho Mello. Ele também é o candidato mais forte para encabeçar novamente a disputa ao governo, daí o impasse sobre o lugar que vai ocupar na chapa. O ex-prefeito de Blumenau é uma peça chave na montagem desse xadrez e tem dito que estará onde Lula achar melhor.
Lideranças do partido chegaram a tentar aproximação com nomes conhecidos da direita de Santa Catarina, como do ex-senador tucano Paulo Bauer, que é próximo do vice-presidente Geraldo Alckmin e poderia se filiar ao PSB.
O ex-governador Raimundo Colombo, hoje no PSD, também foi sondado para composição entre esquerda e centro-direita, mas as negociações não evoluíram. Se um deles estivesse disposto a encabeçar chapa com candidatura ao governo, Décio estaria livre para disputar o Senado. A esquerda buscou essa aproximação por entender que existe um eleitorado de direita no Estado que rejeita o bolsonarismo.
Efeito Carlos Bolsonaro
Todo esse jogo nos bastidores se intensificou após o racha público na extrema-direita catarinense, que não foi receptiva a chegada de Carlos Bolsonaro. Atualmente, há três possíveis candidatos do campo ultra bolsonarista em busca de duas vagas: além de Carlos, a deputada federal Caroline de Toni, que pode se filiar ao Novo, e o senador Esperidião Amin, da oligarquia local e com forte influência nos movimentos empresariais.
O cálculo das lideranças do PT é de que esse racha vai gerar divisão de votos, o que potencializaria o investimento em uma candidatura forte ao Senado. Décio despontou como alternativa a partir dessa leitura de cenário e já apareceu em pesquisas de opinião com desempenho muito próximo ao dos rivais extremistas. Mas o partido também teme abrir mão da candidatura ao governo e, com isso, enfraquecer o palanque de Lula no Estado.
Na última visita a Santa Catarina, no final de novembro, o presidente do PT Edinho Silva também deixou o cenário aberto. À época, o nome do vereador de Balneário Camboriú, Eduardo Zanatta, vinha sendo cogitado como um possível candidato ao Senado, mas a indicação não evoluiu. Zanatta é uma liderança jovem do PT e teve alguns duelos com Jair Renan Bolsonaro em 2025. Além disso, é um dos entusiastas do tarifa zero, uma pauta relevante para o campo progressista.
O PT também tem no nome do atual presidente do partido e deputado estadual, Fabiano da Luz, um possível “coringa” para a composição. Fabiano é popular nas redes sociais, com crescimento orgânico a partir de estratégias de marketing bem construídas. O desafio, entretanto, seria fazê-lo abrir mão de uma disputa à reeleição na Assembleia Legislativa de Santa Catarina.
O deputado federal Pedro Uczai e a deputada estadual Luciane Carminatti também são nomes populares entre a militância, mas têm um caminho menos delicado buscando a reeleição do que apostando em outros desafios. Além disso, pelo potencial de votos, são importantes também para a construção da legenda nas eleições proporcionais.
Outras contas
Em 2022, Décio Lima foi ao segundo turno após uma estratégia de composição de uma frente ampla. Ele cresceu nas pesquisas nas últimas semanas antes das eleições do primeiro turno e na visita de Lula a Florianópolis, em um comício que reuniu milhares de pessoas.
Na época, o cálculo do PT foi que a polarização que dividiu o país na disputa presidencial estava bastante caracterizada no Estado. Para o Senado, o partido escolheu dar espaço a um nome de centro-direita, Dário Berger, então no PSB. A composição não agradou o eleitorado, que escolheu o carioca Jorge Seif para a vaga, em mais um aceno à extrema-direita.
A governabilidade fácil e o apoio midiático a Jorginho Mello deveriam tornar o caminho mais fácil, mas o fator Carlos Bolsonaro traz um elemento de imprevisibilidade e pode ser considerado um teste para os próximos anos. Hoje, a aposta é de que a rejeição a ele deva beneficiar candidaturas à esquerda enquanto a família vai perdendo espaço e potencial eleitoral, inclusive com brigas e disputas internas de poder entre Flávio e Michelle Bolsonaro. Qualquer passo em falso de Carlos neste duelo pode fragilizá-lo ainda mais.
O campo progressista também tenta dimensionar o efeito que a centro-direita deve ter no cenário e o quanto a radicalização de Carlos Bolsonaro pode afastar esse eleitor e trazê-lo para um voto útil. O filho do ex-presidente enfrenta resistências no PL, em entidades empresariais e na mídia local.




