O presidente francês Emmanuel Macron afirmou nesta terça-feira (10) que as “ameaças” comerciais e as “intimidações” dos Estados Unidos ainda não terminaram, e ressaltou que a União Europeia precisa se consolidar para desafiar a hegemonia do dólar.
Em entrevista concedida no Palácio do Eliseu a jornais internacionais, entre eles El País, The Economist, Financial Times, Le Monde e Süddeutsche Zeitung, Macron também criticou o acordo de livre-comércio com o Mercosul, chamando-o de “mau negócio”, “antigo” e “mal negociado”.
O presidente francês renovou seu apelo para que a UE avance em um maior endividamento conjunto, como forma de financiar investimentos em grande escala e fortalecer a moeda europeia frente ao dólar norte-americano. Macron destacou ainda que as instituições democráticas da Europa são um diferencial para investidores, especialmente em um momento em que os Estados Unidos estariam “se afastando do Estado de Direito”.
“Os mercados globais estão cada vez mais desconfiados do dólar dos EUA. Eles estão em busca de alternativas. Vamos oferecer a eles dívida europeia”, afirmou Macron.
A União Europeia recorreu à dívida conjunta em 2020 para impulsionar a economia após a pandemia, mas a tentativa de tornar o instrumento permanente enfrentou resistência da Alemanha e de outros Estados-membros do norte do continente, segundo informações da agência de notícias Reuters.
Duplo desafio: EUA e China
Macron reforçou que a Europa enfrenta um duplo desafio geoeconômico: o “tsunami chinês” no comércio e a instabilidade estadunidense.
“Temos o tsunami chinês no front comercial e, do lado americano, uma instabilidade minuto a minuto. Essas duas crises representam um choque profundo — uma ruptura para os europeus”, disse.
O presidente francês criticou a postura europeia diante do governo Trump, acusando líderes do bloco de demonstrarem um “alívio covarde” ao negociar tarifas, e alertou que novas ameaças comerciais continuam iminentes, citando produtos farmacêuticos e outros setores.
“Quando há uma agressão manifesta, não devemos nos dobrar nem tentar chegar a um acordo. Testamos essa estratégia durante meses e ela não dá resultados. Mas, sobretudo, leva estrategicamente a Europa a aumentar sua dependência”, acrescentou.
Mercosul e estratégia comercial
Em relação ao acordo UE-Mercosul, Macron defendeu a necessidade de simplificação e aprofundamento do mercado interno europeu, bem como a diversificação dos acordos comerciais, sem recorrer ao protecionismo. Ele propôs uma “preferência europeia” em setores estratégicos como tecnologias limpas, química, aço, automotivo e defesa.
Questionado sobre sua oposição ao Mercosul, o presidente francês argumentou que, embora a estratégia e o sinal geopolítico do acordo sejam corretos, o tratado está desatualizado e mal negociado.
Ele defende a inclusão de cláusulas espelho para impor aos produtores não europeus as mesmas restrições aplicadas internamente, garantindo acordos justos e respeitando padrões ambientais e econômicos. “Caso contrário, nós, europeus, ‘seremos varridos’”, alertou Macron.




