Não sei se o caro leitor repara nestas coisas. De uns tempos para cá, tenho percebido uma dissonância cognitiva diferente em Jair Bolsonaro. As mãos do ex-presidente adquiriram vida própria e, em geral, deram para discordar do resto do corpo. Não seria um espanto se, a esta altura, o capitão tentasse fazer um gesto de arminha como na foto que ilustra esse texto e os dedos, em completo desacordo, até em protesto, terminassem por exibir um L de Lula. Digo isso quase aos sussurros, nesta relação particular entre nós, que fique entre a gente, rogo, para não despertar o instinto dos advogados de Bolsonaro. Meu receio é essa observação se tornar um inegável argumento de defesa do réu por liderar uma organização criminosa armada: se ele não consegue controlar as próprias mãos, como seria capaz de orquestrar a abolição violenta do Estado de Direito? A bem da verdade, talvez a ruptura entre as entranhas e as extremidades táteis do acusado justifique o desfecho dos acontecimentos, o fracasso da quartelada. As mãos, na mais simbólica e crucial fraquejada do capitão, não tiveram forças para segurar a caneta que assinaria o decreto do golpe. Tremeram na base.
Bolsonaro também não controla a língua, como perceberam as eminências que aceitaram representá-lo no STF. Fala pelos cotovelos e continua a produzir provas contra si. É uma espécie de Isaac Karabtchevsky desvairado da Orquestra Cacofônica Brasileira, essa desarmonia, tão aleatória quanto intencional, que executa os sons do âmago imoral de uma parte nada desprezível dos donos do poder. O maestro pretende uma coisa, a batuta sugere outra, o bumbo se descontrola, o violino desafina e o gato se acomoda na tuba. A banda, ou o bando, no coreto no jardim planeja atravessar a sinfonia do julgamento dos golpistas.
Por: Carta Capital