Manaus (AM) – Referência internacional em Medicina Tropical e um dos maiores nomes da pesquisa clínica na Amazônia, o médico e pesquisador Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda, da Fiocruz Amazônia, consolidou sua trajetória como um dos principais defensores da ciência e da saúde pública em tempos de crise. Ao longo da pandemia, quando o medo e a incerteza abriram espaço para uma onda de desinformação, ele fez o que poucos tiveram coragem de fazer: bater de frente com mentiras travestidas de “cura”.
Enquanto o Brasil mergulhava numa disputa política em torno de medicamentos sem eficácia comprovada, Marcus Lacerda se destacou por uma postura clara: não existe atalho contra a Covid-19, e a ciência não pode ser substituída por crenças, pressão ideológica ou campanhas na internet.
O combate à fake news da cloroquina
Um dos episódios mais marcantes desse período foi a defesa insistente da cloroquina e hidroxicloroquina como suposto “tratamento” para a Covid-19. Mesmo sem comprovação científica robusta — e com alertas cada vez mais graves sobre efeitos adversos — o remédio passou a ser propagado como solução fácil, alimentando uma das maiores fake news sanitárias da história recente.
Foi nesse cenário que Marcus Lacerda se tornou uma voz firme, especialmente a partir da Amazônia, região que conhece como poucas pessoas: comunidades distantes, precariedade de acesso e pacientes vulneráveis a todo tipo de promessa falsa.

Lacerda passou a denunciar publicamente o risco do uso indiscriminado, alertando que a cloroquina não era tratamento comprovado para Covid-19 e que insistir no medicamento poderia significar mais internações, mais complicações e mais mortes, além de desviar o foco de medidas que realmente salvavam vidas, como prevenção, vacinação, testagem e assistência adequada.
Ataques, pressão e tentativa de descredibilização
A postura de Marcus Lacerda — baseada em dados e evidências — não agradou quem transformou a pandemia em palco político. O pesquisador passou a sofrer forte hostilidade pública e tentativas de desmoralização, numa época em que cientistas brasileiros viraram alvos por simplesmente dizer o óbvio: medicina não pode ser feita com boatos.
Ele seguiu firme. Em vez de recuar, manteve sua defesa do que deveria ser o mínimo: responsabilidade sanitária.
Ao denunciar desinformação, Lacerda também expôs uma ferida perigosa: a facilidade com que mentiras circulam quando vidas estão em jogo. E o que começou como propaganda virou uma crise real: pessoas se automedicando, se expondo a riscos e, muitas vezes, atrasando o cuidado correto esperando “o remédio milagroso”.
Uma vida dedicada à Amazônia — e à ciência que salva
Nascido em Taguatinga (DF), Marcus Lacerda se formou em Medicina pela Universidade de Brasília (UnB) e se especializou em Infectologia na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), no Amazonas. Foi aí que iniciou sua caminhada ao lado de comunidades remotas da região, encarando de perto a malária e outras doenças tropicais negligenciadas.
Hoje, ele coordena o Laboratório Instituto de Pesquisas Clínicas Carlos Borborema (IPCCB), vinculado à Fiocruz Amazônia, em Manaus — um centro reconhecido por unir ciência laboratorial, ensaios clínicos e pesquisa de implementação para orientar políticas públicas.
Seu currículo impressiona: mais de 460 publicações científicas, atuação como professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e vínculo como professor adjunto da University of Texas Medical Branch (UTMB). Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), ele é especialista mundial no manejo e eliminação da malária, especialmente no enfrentamento do Plasmodium vivax.
Inovação e impacto direto na saúde pública
Entre contribuições recentes que marcaram a saúde pública na Amazônia, Lacerda liderou iniciativas pioneiras como:
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implementação da Prep oral e injetável contra HIV
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uso da tafenoquina em dose única como cura radical para malária vivax
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implantação da coleta post mortem MITS, para estudo de causas de morte
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coordenação do projeto Telemal, para acelerar diagnóstico e tratamento em áreas remotas do Amazonas
Mas sua marca não é apenas científica. É humana, direta, e profundamente amazônida: usar conhecimento para encurtar distâncias e salvar vidas onde o Estado costuma chegar tarde.
A diferença entre coragem e oportunismo
O Brasil viveu uma pandemia também no campo das ideias: ciência contra boato, evidência contra propaganda. Marcus Lacerda entrou nessa disputa não por vaidade, mas por obrigação ética.
Enquanto a cloroquina era vendida como “salvação”, ele insistiu no que a medicina sempre exigiu: prova, rigor e responsabilidade.
A história vai registrar que, em um dos períodos mais confusos e violentos da saúde pública nacional, um pesquisador da Amazônia segurou a linha da verdade — e pagou o preço social por isso.
Porque quando a ciência desmonta uma mentira popular, os ataques vêm.
Mas quando ela se cala, quem morre é o povo.




