Segundo a tradição, Jesus Cristo transformou água em vinho. Nunca transformou vinho em água. Fez isso, segundo o evangelho de São João, para que a festa continuasse na Galiléia.
O meu Jesus Cristo era aconchegado nas alegrias e sassaricava nas encruzas em que o profano se sacraliza e o sagrado é profanado. É por isso que sou do cristianismo popular: bebo e compartilho da boa mesa com os meus camaradas e com quem saiba chegar em paz.
O meu Jesuscristinho é o dos presépios precários, das bandinhas de pastoris e lapinhas, dos enfeites formosos das moças dos cordões azul e encarnado e das folias que alumbram de brasilidades os fuzuês que homenageiam – entre cachaças, cafés e bolos de fubá – os Santos Reis do Oriente.
Ele, o Cristo dos meus delírios, se sentiria mais a vontade num botequim de esquina do que na Basílica de São Pedro. Se manifesta nas mãos calejadas dos devotos no Círio de Nazaré, na empatia do ateu que compartilha o pão, e não nas vestes sacerdotais, ternos e gravatas dos condutores do bonde da aleluia.
Deve respeito – e é respeitado – a Tupã, Zambiapungo, Olorum, Vishnu, Shiva, Brahma e a todos os deuses e deusas que dançam nas encantarias do mundo. Não impõe a ninguém qualquer crença e estaria ao lado dos deserdados da terra que não têm Natal.
Meu Cristo, enfim, é pedrinha miudinha. Sorri, joga bola na várzea, bebe nos subúrbios, rala nas fábricas, vive nas ruas e, quando o sol vai quebrando lá pro fim do mundo pra noite chegar, descansa e adormece como o menino brasileiro que sobreviveu mais um dia à sanha perversa dos poderosos.
A vista não pode alcançar a belezura de suas miudezas.
Feliz Natal!




