A empreendedora Arlene de Melo mora no bairro há 35 anos (Ricardo Oliveira/CENARIUM)
06 de março de 2025
Letícia Misna – Da Cenarium
MANAUS (AM) – Moradores de uma área do bairro Zumbi dos Palmares, na Zona Leste de Manaus (AM), relataram, à CENARIUM, os impactos que a destruição de uma ponte de madeira sobre um igarapé que liga duas áreas da localidade tem na comunidade, e que contribuiu para o desaparecimento do ajudante de pedreiro Josiel Feitosa, 36 anos, na última quarta-feira, 4.
A via de passagem foi arrastada pela enchente durante a forte chuva na capital amazonense nesta semana. Sem a ponte, segundo testemunhas, Josiel Feitosa tentou atravessar o igarapé, mas foi levado pela força d’água e está desparecido desde então. Até o momento o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) segue nas buscas pelo homem.
De acordo com o motorista de carreta Alexandre de Oliveira Pinto, morador da área há 34 anos, a ponte arrastada, que ligava as ruas Doutora Telma e Doutora Marilza, foi construída pela Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) há apenas cinco meses, substituindo uma outra que já estava em estado crítico.
“Sempre é de madeira, e a madeira apodrece com a chuva. A gente sempre pediu ‘faz uma de concreto, nem que seja só com um degrau’. Agora já teve uma vida ceifada, será que nem isso vai tocar no coração das autoridades? Eu sei que não toca, que mesmo acontecendo isso eles não vêm…”, disse Alexandre à CENARIUM.
Ele relatou ainda que, durante a enchente, precisou resgatar um idoso que respirava com o auxílio de um cilindro de oxigênio e já estava com a água na altura do peito. “Aqui, no Zumbi, são 30 mil eleitores, mas nem um representante do bairro tem. Tem uma pessoa que está sumida e até agora nenhuma autoridade veio aqui para ver como é que está nossa situação”, lamentou Alexandre.
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Tudo para o fundo
A empreendedora Arlene de Melo, que mora no Zumbi há 35 anos, contou que, em 2023, houve uma alagação parecida, que destruiu todo o seu ateliê. “Meu objeto de trabalho foi todo para o fundo. Eu perdi tudo. Tive que recomeçar. E agora isso de novo: outra alagação, que trouxe a perda da ponte”, declarou.
Arlene também contou que seus vizinhos perderam camas, guarda-roupas e outros móveis. Quando o volume da água baixou, a comunidade ficou horas retirando a lama que ficou. “Por que a gente tem que ficar pedindo todo ano? Se humilhando para fazerem uma ponte que presta? Olha o que aconteceu! A gente não sabe se ele [Josiel] está vivo, se ele está morto, se ele está preso por aí. E por quê? Porque não fizeram uma coisa digna para nós”, disse.
A empreendedora destacou ainda que, com a falta dessa passagem, estudantes e trabalhadores terão seu cotidiano afetado. “Todo mundo tem que passar por essa ponte. Amanhã iniciam as aulas. Não tem acesso para as crianças irem para a escola. Não tem como ir para o trabalho, porque as pessoas pegam rota aí na esquina. Como é que vão pegar a rota? Vão ter que fazer uma rota bem grande para poder chegar ali na esquina”, disse.
Mais água que o normal
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), até as 21h de terça-feira, 4, foram contabilizados 109,6 mm de volume de chuva, o que representa 34,15% do normal esperado para o mês de março em Manaus, que é de 320,9 mm.
A precipitação foi equivalente, em média, a dez dias de chuva. Por área, segundo a Defesa Civil do Amazonas, os maiores registros ocorreram no bairro Santa Luzia (152,20 mm), Igarapé do 40 (134,80 mm), Igarapé do Mindu (97,40 mm), Bairro da União (95,60 mm) e Santa Etelvina (75,57 mm).
Em 2024, por sua vez, foram registrados 411,9 mm em março, com o maior registro de 24 horas marcando 104 mm, entre os dias 24 e 25.
Resposta
A CENARIUM entrou em contato com Secretaria Municipal de Infraestrutura de Manaus (Seminf) e a Defesa Civil do município para questionar sobre a ponte, mas, até a publicação desta matéria, nenhum dos órgãos havia respondido.
Editado por Marcela Leiros
Revisado por Gustavo Gilona
Fonte: Agência Cenarium