Por Cleber Lourenço
Documentos da investigação do Banco Master mostram uma diferença de quase R$ 1,4 bilhão entre informações prestadas pelo banco e pelo Banco Central sobre carteiras de crédito originadas pela The-Pay Soluções de Pagamentos e posteriormente negociadas com o BRB. A inconsistência foi apontada pelo próprio Ministério Público Federal (MPF), que confrontou os documentos e registrou nos autos que as informações eram contraditórias.
Em 25 de março de 2025, o Master apresentou ao Banco Central uma relação de operações que incluía duas carteiras compradas da The-Pay em dezembro do ano anterior. Os valores registrados na coluna “Vlr. Compra” eram de R$ 203,88 milhões e R$ 100,48 milhões, totalizando aproximadamente R$ 304,36 milhões. O MPF posteriormente se referiu ao montante como cerca de R$ 303 milhões.
Cinco meses depois, porém, o próprio Banco Central informou ao Ministério Público que a recompra das carteiras da The-Pay anteriormente cedidas ao BRB havia movimentado “volume da ordem de R$ 1,7 bilhão”.
A diferença entre os valores é de aproximadamente R$ 1,4 bilhão.
Os documentos disponíveis não permitem concluir que o “valor de compra” informado pelo Master e o “volume da recompra” mencionado posteriormente pelo Banco Central sejam conceitos financeiros equivalentes. O ponto relevante é que o próprio MPF analisou as duas informações e registrou formalmente que uma contradizia a outra.
Master apresentou uma ‘primeira versão’
A origem da divergência está em uma cobrança feita pelo Banco Central ao Master em março de 2025.
Em resposta ao Ofício 7062/2025 do BC, o banco apresentou, em 25 de março, informações sobre carteiras posteriormente negociadas com o BRB. O MPF classificou posteriormente aquele documento como a “primeira versão” apresentada pelo Master sobre as cessões.
Nela apareciam a The-Pay e associações de servidores da Bahia como originadoras de carteiras negociadas entre dezembro de 2024 e março de 2025.
No caso da The-Pay, a tabela indicava duas operações. A primeira, datada de 20 de dezembro de 2024, tinha “valor de compra” de R$ 203.881.028,28. A segunda, de 24 de dezembro, registrava R$ 100.483.424,89.
Somadas, as duas operações chegam a R$ 304.364.453,17.
As carteiras foram posteriormente cedidas pelo Master ao BRB.
O episódio ganhou outra dimensão porque o Master decidiu recomprar esses créditos em 12 de fevereiro de 2025. Segundo a explicação posteriormente registrada pelo Banco Central, clientes começaram a reclamar que não reconheciam os empréstimos.
O Master teria então verificado que esses clientes não possuíam histórico anterior de operações e que o relacionamento deles com a The-Pay era recente. O banco decidiu interromper novas operações com a empresa e recomprar as carteiras que haviam sido transferidas ao BRB.
BC informou recompra de R$ 1,7 bilhão
Em 6 de agosto de 2025, o Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central enviou ao MPF o Ofício 20035/2025.
O documento retomou o caso da The-Pay e confirmou que as carteiras haviam sido compradas pelo Master e posteriormente cedidas ao BRB nos dias 20 e 24 de dezembro de 2024 — exatamente as datas que aparecem na documentação anterior.
Depois, o BC acrescentou uma informação que não constava daquela tabela apresentada pelo Master:
“A referida recompra envolveu volume da ordem de R$ 1,7 bilhão.”
O Banco Central também informou que não realizou novos exames sobre aquelas carteiras porque elas já haviam sido substituídas.
A informação surgiu depois de o MPF questionar o regulador sobre possíveis irregularidades também nas operações realizadas pelo BRB em 2024, e não apenas nas transações ocorridas no ano seguinte.
Foi ao comparar essa resposta do Banco Central com a documentação enviada anteriormente pelo Master que o Ministério Público apontou a inconsistência.
Na manifestação, o MPF registrou que a informação sobre a recompra de aproximadamente R$ 1,7 bilhão “contradiz” o ofício apresentado pelo Master em 25 de março, no qual as carteiras compradas da The-Pay e posteriormente cedidas ao BRB apareciam com valor próximo de R$ 303 milhões.
A diferença nominal entre os dois números é de aproximadamente R$ 1,4 bilhão. O montante informado posteriormente pelo Banco Central é cerca de 5,6 vezes o valor registrado na tabela apresentada pelo Master.
Documentos não explicam diferença
A documentação disponível, no entanto, deixa uma questão importante em aberto.
Na tabela apresentada pelo Master, os aproximadamente R$ 304 milhões aparecem em uma coluna denominada “Vlr. Compra”. Já o Banco Central usa a expressão “volume da recompra” ao mencionar os R$ 1,7 bilhão.
Isso impede concluir, apenas a partir desses documentos, que os dois valores representem necessariamente a mesma grandeza financeira.
Também não aparece nos documentos analisados uma memória de cálculo que explique como foi formado o montante de R$ 1,7 bilhão ou que demonstre se ele corresponde exatamente aos mesmos contratos relacionados aos R$ 304 milhões.
A ausência dessa explicação não passou despercebida pelo Ministério Público. Ao analisar a documentação, o MPF não tratou simplesmente os números como valores referentes a operações distintas: registrou expressamente a existência de uma contradição entre as informações.
Outro ponto permanece sem resposta nos documentos disponíveis: qual foi o valor pelo qual o Master efetivamente cedeu ao BRB, em dezembro de 2024, as carteiras compradas da The-Pay e qual foi o preço pago para retomá-las em fevereiro de 2025.
São esses valores que podem esclarecer se a diferença de quase R$ 1,4 bilhão decorre de critérios distintos de contabilização, da composição das carteiras ou de informações divergentes prestadas durante a fiscalização.
Clientes diziam não reconhecer empréstimos
A diferença de valores ocorre em um conjunto de operações que já havia despertado atenção por outro motivo.
A justificativa apresentada para a recompra foi o surgimento de reclamações de titulares que diziam não reconhecer os empréstimos registrados em seus nomes.
Segundo a reconstrução feita pelo Banco Central a partir das informações prestadas pelo Master, o banco verificou ainda que esses clientes não possuíam histórico anterior de operações e que a relação deles com a The-Pay havia começado recentemente.
Na ocasião o Master decidiu encerrar novas operações com a empresa e recomprar as carteiras cedidas ao BRB.
A The-Pay também aparece na investigação do MPF cercada de dúvidas sobre sua capacidade operacional. Documentos dos autos apontam que a empresa não tinha empregados registrados e que seu objeto social não previa a atividade financeira necessária para explicar, por si só, a dimensão das operações que passaram por ela.





