Como era de se esperar, a entrevista que César Tralli e Renata Vasconcelos fizeram com Lula na noite de quinta-feira (27) foi marcada por perguntas sobre o filho do presidente.
Os vazamentos que a Polícia Federal tem oferecido a conta-gotas para a imprensa apontam a suspeita de parceria entre Fábio Luiz e a lobista Roberta Luchsinger. Segundo as investigações, ela pretendia usar a influência de Fábio para vender ao governo medicamentos à base de cannabis.
A venda não foi consumada, como a própria PF admite, mas as investigações continuam.
Tralli e Renata perguntaram três vezes sobre o que Lula faria com relação às suspeitas que recaem sobre seu filho.
O presidente respondeu dessa forma aos entrevistadores, sob os olhares de milhões de telespectadores da Globo:
— “Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro que cometer ilícito. Eu não vou afastar delegado da Polícia Federal, eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja acobertado se ele tiver erro, como outros já fizeram”.
— “Só ele (Fábio Luiz) sabe a verdade. Se ele fez erro, ele pagará. Não existe outro jeito. Ele não será protegido por ser meu filho. (…) Não haverá da parte da Presidência da República um milímetro de movimento para proteger o meu filho. (…) Se for culpado, ele pagará o preço. Se não for, ele será inocentado”.
— “Meu filho vai ser investigado como qualquer cidadão brasileiro”.
No dia seguinte, no principal canal de TV por assinatura do país, a Globonews, uma das mais importantes jornalistas da equipe, Andréia Sadi, traduziu no seguinte título a fala de Lula na entrevista:
“Lula blinda filho e Jaques, e rifa aliado”.
O título da notícia no blog de Sadi, no G1, era um pouco diferente:
“Lula rifa aliados, blinda filho e Wagner e acende alerta no PT com lobista vista como ‘fio desencapado’”.
Ou seja: o conteúdo da notícia desta sexta-feira (28) era justamente o inverso do que o presidente tinha afirmado na Globo na noite anterior.
O inverso!
No meio do comentário, Sadi atribui a avaliação de blindagem a “aliados do presidente “, sem os nomear. Como se qualquer absurdo dito por uma fonte devesse ser levado em conta, mesmo quando obviamente mentiroso.
Não é um incidente sem importância. Essa distorção acontece justamente quando Lula trata do assunto que mais desgaste traz à sua campanha.
O episódio ocorre no mesmo canal onde, há alguns meses, foi apresentado um PowerPoint mentiroso, colocando Lula em ligação direta com Daniel Vorcaro. Foi manipulação tão escandalosa que resultou em pedido de desculpas público.
Agora, em plena campanha eleitoral, a Globonews apronta mais essa.
O antipetismo convicto que os veículos do Grupo Globo disseminaram por tantos anos — desde antes da Lava Jato — parece um mal incurável para alguns de seus profissionais. Isso seria grave em qualquer época, mas na eleição em que o Brasil corre o risco de ver sua soberania ruir e o país ser completamente entregue ao domínio estrangeiro, como já prometeu a família Bolsonaro, tudo se torna mais dramático.
Quem aponta barbaridades como essa é chamado pelos jornalistas da grande imprensa de militante — certamente será o caso desta coluna.
A única militância aceita por eles é a praticada contra os políticos progressistas, geralmente vítimas da falsa equivalência que coloca no mesmo nível verdadeiros democratas e inimigos da democracia.
O importante é parecer isento, nem que para isso seja preciso inverter o significado da declaração de um entrevistado.





