Nossa Senhora das Devoções Aconchegadas


Sou dos que acham que a vida, no meio de uma generalizada sensação de desencanto, continua pulsando nas miudezas cotidianas. É fato que o Brasil institucional às vezes parece ir para o beleléu, a intolerância campeia (como sempre, e não “como nunca antes”), o preconceito grassa, o mundo guerreira e os homens se matam. Entre anjos caídos e diabos em ascensão, não há o que nos redima inapelavelmente ou nos condene de vez.

Mas sou, como disse acima, de coisas corriqueiras. O cotidiano continua sendo constantemente reinventado nas brechas onde as mulheres e homens comuns e insistentes dão o nó no rabo da caninana, choram, gargalham, nascem, morrem, celebraram, balançam os corpos, seguram a onda batendo na palma da mão, molham a garganta com gorós diversos e remam na terceira margem do rio.

Desconfio que entre a vida plena e a morte certa, há quem ouse sobreviver e fazer disso a matéria-prima para construir outros mundos: mínimos, frágeis, momentaneamente alegres, ocasionalmente sublimes e desafiadores.

Dou um exemplo dessa miudeza que instaura o espanto na vida.

Debaixo da tamarineira sagrada do Cacique de Ramos, terreiro do samba carioca, o axé de Oxossi, conforme as regras do Gantois, está plantado. À frente da árvore, uma imagem de São Jorge. Acima, padroeiro da casa encantada, São Sebastião. No pé da tamarineira, no meio das folhas da mironga de caboclo, há uma capelinha com a imagem do Sagrado Coração de Maria, quase imperceptível.

A fé caciquena se manifesta como acúmulo de força vital, acréscimo de encanto, bem longe da diluição ou do apagamento de um a crença por outra. Uma fé brasileira, rueira, de devoções aconchegadas e nada institucional, em suma.

A capelinha de Maria entre as folhas, compartilhando o sagrado com Oxóssi e os caboclos, talvez o detalhe mais miúdo e menos visível do terreiro de Ramos, é o que mais me comove ali.

Maria desperta uma devoção que se esparrama no solo fértil da cultura brasileira, desce dos altares, borda de encantos as lágrimas dos rosários e terços, consagra os escapulários da Virgem do Carmo e do Sagrado Coração de Jesus, ressoa nos tambores dos reinados, folias, moçambiques, congadas e sambas.

Não bastasse tudo isso, Maria também escuta e abençoa modestamente, ao lado do Rei de Ketu, a batucada dos nossos tantãs.

A minha Maria, costumo tratá-la assim, é a Nossa Senhora das Devoções Aconchegadas; a Maria do Cacique de Ramos, mãe generosa de um Brasil popular.





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