Novo tarifaço é revés para Flávio Bolsonaro, avaliam Centrão e aliados


Por Augusto Tenório e Carolina Linhares

(Folhapress) – Políticos do Centrão e mesmo aliados de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) avaliam que a imposição pelos Estados Unidos de um novo tarifaço de 25% sobre importações vindas do Brasil é um revés para a campanha presidencial do senador, que se tornou alvo do governo Lula (PT) desde o anúncio da medida.

A sugestão para que os EUA apliquem novas sobretaxas ao Brasil partiu do USTR, órgão americano responsável por comércio internacional, como resultado de uma investigação sobre supostas práticas prejudiciais ao país. A decisão sobre efetivar ou não as tarifas cabe ao presidente dos EUA, Donald Trump.

O entorno de Flávio diz acreditar numa virada de jogo pelo senador, apesar de identificarem desorientação e omissão nas primeiras respostas públicas. Enquanto o bolsonarista tem sido responsabilizado por Lula pelo tarifaço, seus aliados tentam distanciá-lo da crise que se aproxima, mas ainda não emplacaram uma narrativa de defesa nas redes.

O senador divulgou um vídeo para tentar se reposicionar na crise. Na gravação, ele alegou ter defendido a Trump abandonar novas tarifas, tentou resgatar a pauta das facções criminosas, que foi benéfica a ele, e se descolou da medida ao dizer que ela envolve outros países e antecede sua visita a Trump.

“Uma investigação que começou em 2025, muito antes da minha visita aos Estados Unidos na semana passada. A realidade é que essa tarifa é do Lula, pelo seu tom agressivo com os Estados Unidos, pelo seu discurso antiamericano”, disse.

Flávio afirmou que enviou uma carta ao governo dos EUA pedindo que as tarifas não sejam aplicadas e se colocou à disposição de Lula para ajudá-lo nisso.

Integrantes do Centrão afirmam que o novo tarifaço pode até anular os ganhos políticos colhidos por Flávio após sua visita a Trump na semana passada. Presidentes de partidos até então independentes na disputa nacional avaliam que o senador ficou desorientado após o escândalo do Master e não mediu as consequências ao se aproximar do americano neste momento.

Na avaliação desses líderes, Flávio não colocou na conta o efeito negativo sobre a economia da designação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas. A medida foi anunciada após o encontro do pré-candidato com Trump, e o senador alardeou ter tido influência na decisão da Casa Branca.

Agora, esses chefes do Centrão pontuam que Flávio tende a derreter com o anúncio de um novo tarifaço. Eles alertam, também, que uma possível ofensiva contra o Pix por parte dos EUA pode prejudicar ainda mais a situação de Flávio.

Nesta terça (2), o governo Lula passou a usar o possível novo tarifaço como forma de desgastar Flávio e reforçar a defesa da soberania, argumentando que o senador quer entregar o país aos Estados Unidos, além de colocar em risco o Pix.

Na opinião de aliados de Flávio, o tamanho do estrago para a candidatura do senador vai depender de as tarifas serem de fato aplicadas ou não. Eles apostam ainda que o bolsonarista deve seguir pontuando como o adversário mais competitivo contra Lula, o que vai manter o apoio do mercado a ele.

Uma publicação de Trump nesta terça também tem sido usada por bolsonaristas a favor de Flávio. O presidente americano escreveu que foi bom receber Flávio na Casa Branca e que o senador é um “jovem inteligente que ama muito seu país”.

Para políticos ouvidos pela Folha, porém, há uma série de contradições que prejudicam Flávio na boa relação com Trump, ao mesmo tempo em que o presidente americano atendeu o pleito bolsonarista em relação às facções, o ignorou em relação às tarifas.

A coincidência temporal entre a visita de Flávio a Trump e o anúncio de possíveis novas tarifas também foi explorada pela esquerda. “Hoje, no mesmo dia em que Trump ameaça o Brasil com tarifa de 25% e ataca o Pix, ele publica sua foto com Flávio Bolsonaro dentro da Casa Branca. Coincidência? Flávio foi aos EUA pedir apoio político e, logo depois, veio uma ofensiva contra a soberania e a economia nacional”, publicou o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ).

Flávio Bolsonaro em agenda com Donald Trump
Flávio Bolsonaro em agenda com Donald Trump

Em entrevista pela manhã, Flávio disse que pediu a Trump para não taxar o Brasil e que novo tarifaço seria uma retaliação a Lula.

“[Eu pedi] por favor, não taxa as empresas brasileiras, só que nós temos sentado hoje na cadeira de presidente alguém que simplesmente conseguiu ganhar a desconfiança do governo americano. Eles não confiam no Lula porque ele sai de lá pedindo primeiro para não combater facções criminosas”, declarou à rádio Itatiaia.

O episódio ainda deu força para o resgate da estratégia de defesa da soberania, que alavancou Lula no primeiro tarifaço. Na época, a aplicação das taxas foi vista como responsabilidade do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que havia pedido ao governo americano sanções contra autoridades brasileiras na tentativa de livrar seu pai, Jair Bolsonaro (PL), da prisão.

Integrantes da pré-campanha de Flávio afirmam que as primeiras reações ao novo tarifaço foram ruins para o senador e mostraram que os petistas estão mobilizados em torno do tema. Em discurso nesta terça, Lula chamou o adversário de imbecil e traidor da pátria.

“Flávio Bolsonaro foi beijar as mãos do Trump enquanto ele taxa as empresas brasileiras e ataca o Pix. […] É isso o que nos separa da extrema direita: enquanto eles lutam pelos interesses estrangeiros, a gente defende a nossa pátria e a soberania nacional”, publicou o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), que concorre ao Governo de São Paulo.

Na outra ponta, bolsonaristas têm dito que a nova ameaça de tarifa se deve a erros diplomáticos e provocações de Lula aos Estados Unidos. “Enquanto o PT alimenta atritos ideológicos com o governo Trump, Flávio atua onde o Brasil precisa: no diálogo, na articulação e na defesa real dos interesses nacionais”, escreveu o deputado General Pazuello (PL-RJ).

“É por isso que a gente está na merda diplomática que estamos: em meio a uma crise com os EUA, Lula resolve partir para a ofensa contra o homem mais poderoso da diplomacia americana. É a antidiplomacia. É claro que vai continuar dando errado”, publicou o influenciador Paulo Figueiredo, que vive nos EUA e acompanhou Flávio no encontro com Trump.





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