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sábado, fevereiro 21, 2026
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O Agente Secreto é “do” Recife, não “de” Recife


No Recife ou em Recife? A polêmica voltou. Risos. Esta sim, uma polêmica suave, que nem pode ser inscrita nos anais da tal polarização política dominante. Essa é moleza.

No oscarável “O Agente Secreto”, por exemplo, os personagens “forasteiros”, como Augusto (Roney Villela) e Teresa Victória (Isabél Zuaa) dizem “em Recife” e “de Recife”.

No roteiro e em quase todas as falas do filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho, o tratamento é “o Recife”, “no Recife”, “do Recife”.

Hoje é bem comum, porém, ouvir, de boa parte dos próprios recifenses, o nome do lugar ser dito sem a preocupação com o acréscimo do artigo “o” — isso seria um pecado capital quando cheguei à cidade, no finalzinho dos anos 1970.

O meu conterrâneo do Cariri, Francisco José, conta como foi advertido por este descuido:

“Muita gente estranha porque falamos no Recife, do Recife… Há 45 anos, logo após uma das entrevistas que fiz com o mestre Gilberto Freyre, ele pegou no meu braço e disse:
— Meu filho, você está cometendo um erro grave de português nas suas reportagens, quando fala de Recife, em Recife… O nome da cidade é originário dos arrecifes, portanto, uma palavra masculina. O certo é dizer: no Recife, do Recife.

Na velha regra geral, adotada por Freyre, todo topônimo originário de um acidente geográfico (no caso a origem são os arrecifes) é antecedido pelo artigo definido. Dizer “em Recife”, portanto, seria a mesma coisa que dizer “em Rio”, “de Bahia”, “em Amazonas” etc.

Gilberto Freyre era tão cricri em relação ao assunto, que chegou a escrever um texto para o “Diário de Pernambuco” com o seguinte título: “O Recife, sim! Recife, não! — pequeno guia do Recife escrito para não-recifenses pelo recifense de Apipucos”.

De Manuel Bandeira a Miró da Muribeca, passando por Cida Pedrosa, a poesia pernambucana diz, naturalmente,  “no Recife”. A música do Mangue Beat, com Chico Science ou Fred 04, idem.

O mesmo ocorre com o escritor Marcelino Freire, autor de “Rasif – Mar que arrebenta” (editora Record). Rasif é a origem árabe da palavra Recife.

Tem gente, no entanto, uma multidão de recifenses da própria Manguetown, pronunciando tranquilamente “de” ou “em Recife”. Não morre ninguém por isso. Risos de novo, óbvio. A regra, como a vírgula, não nasceu para humilhar ninguém. Segue a vida.

O gramático paulista Napoleão Mendes de Almeida, o homem do “Dicionário de Questões Vernáculas”, achava que o uso do artigo “o” antes de topônimos (como o Recife) poderia ser facultativo.

Para os pernambucanos mais tradicionais, porém, é lei. Opa! Os apresentadores do Oscar, com suas eventuais brincadeirinhas em português, nem ousem dizer que “O Agente Secreto” é um filme de Recife. O Recife mais antigo não perdoaria. A Perna Cabeluda também faria o seu estrago, em protesto, na cerimônia.





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