Num fim de tarde qualquer de 2025, o painel eletrônico da Câmara marcava mais uma sequência de votações: projetos empilhados, requerimentos, destaques, um rito que a equipe técnica conhece de cor. O vaivém é exaustivo e os números contam essa história. Ao longo do ano, foram 288 sessões do Plenário e 2.371 reuniões das comissões, somando 4.384 horas de atividades oficiais. É, em essência, a rotina de uma instituição que decide muito e decide o tempo todo. Ainda assim, no ambiente digital, o clima é outro e nada de comemorações: hashtags hostis ao Congresso, críticas à classe política, dúvidas sobre prioridades e representatividade.
Do ponto de vista quantitativo, 2025 foi um ano de produção legislativa em escala industrial. Na fotografia de Plenário, 316 proposições foram analisadas; o motor dessa cadência incluiu 170 urgências regimentais, atalhos previstos no Regimento para levar matérias diretamente ao voto. No funil mais amplo do processo, 11.201 proposições passaram pela triagem e distribuição entre comissões, Mesa e Plenário. Para quem observa de fora, vale traduzir: nem tudo que se apresenta é transformado em lei, mas o volume ilustra a intensidade do trabalho e a variedade de temas que chegam ao Parlamento.
Essa engrenagem tem explicação. Urgências regimentais encurtam etapas, priorizam matérias e concentram decisões no Plenário quando há acordo político mínimo. O Plenário, por sua vez, funciona como a “sala de máquinas” decisória, enquanto as comissões filtram, aprimoram e preparam textos. É comum que semanas inteiras se organizem em torno de janelas de votação: líderes negociam, a Mesa pauta, relatores ajustam textos, o painel roda. Em 2025, a combinação das 170 urgências aprovadas com o calendário de sessões ajudou a empurrar a fila e entregar deliberações; tecnicamente, é o Parlamento operando em alta rotação.
Os temas, por sua vez, formam o noticiário de quem acompanha a política nacional: economia (de impostos a benefícios), segurança pública (endurecimento penal e instrumentos de investigação), educação e infância (da governança do sistema à proteção no ambiente digital), além de saúde, ambiente e políticas sociais. A lista do ano mostra deliberações pulverizadas entre grandes pautas estruturais e ajustes finos setoriais, o que é típico de um Parlamento de ampla agenda.
Do lado de fora, ao longo de 2025, o termômetro das redes se aqueceu em torno de insatisfações que orbitam a hashtag #congressoinimigodopovo. O repertório é relativamente estável: questionamentos sobre prioridades, vídeos com recortes de discursos e votações apresentados como “provas” de desconexão com a vida real. Há picos previsíveis, dias de votações sensíveis, decisões disciplinares, anúncios econômicos e, entre eles, um ronco contínuo de desconfiança. As redes, por óbvio, estão sujeitas a ruído, bolhas e coordenação; ainda assim, elas moldam clima. Quando essa maré negativa encontra uma pauta quente, o efeito amplificador é imediato: engajamento sobe e a disposição ao diálogo desce.
Episódios institucionais de cassações e afastamentos reforçaram a percepção de desconexão entre representantes e representados. A cada caso, o noticiário passa dias orbitando regras, quebra de decoro, etapas processuais, votos, recursos. Mesmo quando os procedimentos seguem o rito previsto, a mensagem que chega ao público costuma ser binária: “puniu” ou “não puniu”, “protegeu os seus” ou “fez justiça”, “deu em pizza, sim ou não”. Nesse tipo de ambiente, poucos detalhes sobrevivem. Em termos de percepção, casos individuais viram metáfora do todo: a exceção assume o lugar da regra, e o desempenho institucional medido por horas, votações e entregas perde espaço para a disputa simbólica sobre legitimidade.
Esse descompasso tem uma anatomia. Primeiro, o Parlamento mede “output” o número de deliberações, sessões, horas; o público avalia “outcome” o impacto percebido no cotidiano. Em segundo lugar, a linguagem do processo (regime de urgência, destaque, parecer, turno) se afasta do vocabulário comum. Por fim, a comunicação pública do ciclo legislativo tende a noticiar “o que” foi aprovado, mas raramente traduz “quanto”, “quando” e “onde” isso toca a vida das pessoas. Em 2025, a Câmara mostrou capacidade de decidir, porém, transformar decisões em sentido público é um trabalho de outra natureza.
Há pontes possíveis. Uma delas é traduzir a métrica de esforço em métricas de impacto, por tema: “o que muda para quem usa o SUS”, “quanto tempo até virar serviço disponível”, “qual economia ou custo para famílias e empresas”. Outra é territorializar resultados, conectando votações a entregas locais (com mapas, painéis e consultas simplificadas). Mapas temáticos podem expor o estado de cada pauta, do protocolo ao Plenário, passando por comissões, com linguagem comum e visual amigável. Mesmo o uso intensivo de urgência pode ser explicado de modo pedagógico: quando acelera, por quê; quando não, por quê. A experiência comprova que transparência de processo só se converte em confiança quando é legível.
Nada disso substitui o conflito inerente à política e nem deve. A divergência é o material de que a democracia é feita. O que 2025 ensinou é incômodo: alta produção não garante adesão. A Câmara encerrou um ano de alta rotação, com marcos que qualquer organização pública exibiria com orgulho. Mas o descontentamento dominante não é quantitativo; é qualitativo. Ele mora na proximidade (ou distância) entre representantes e representados: na clareza do que foi decidido, na tradução do impacto para a realidade, na escuta dos territórios e na prestação de contas contínua.
A arena da representação é mais exigente do que uma planilha de entregas. Ela demanda processo eficiente, sim, e pontes de significado entre decisão e cotidiano; solicita menos jargão e mais linguagem comum; pede menos rito e mais responsividade. Enquanto essas pontes não se consolidam, números elevados convivem com um humor social azedo, não por falta de trabalho, mas por falta de reconhecimento do vínculo.
E então, vem aí 2026. A renovação total da Câmara e dois terços do Senado. Hora de transformar desconfiança em escolha consciente. Um Congresso “amigo do povo” não nascerá de slogans; nascerá sim de votos informados, que recompensam compromisso e transparência. Façamos a ponte com o voto consciente e intencional.




