O Brasil entre dois mundos


 

A vitória de Lula irradia em várias direções. Talvez a mais impressiva e imediatamente identificável seja a vitória de um projeto de política externa que atribui aos BRICS e ao Sul Global um papel central na construção de uma ordem internacional multipolar. E, no entanto, gostaria de sustentar, que, bem vistas as coisas, esta vitória é igualmente importante para os Estados Unidos. Esse pragmatismo político tornar-se-á mais explícito quando Washington e Brasília relegarem o episódio Flávio Bolsonaro, como espero, para uma nota insignificante da sua política externa.

Aqui vai o que penso. Os BRICS já não são apenas uma associação de economias emergentes ou uma coligação de médias potências que se unem para negociar com o poder hegemónico e unipolar dos Estados Unidos. Esse tempo já lá vai. A verdade das coisas é que os BRICS enfrentam hoje uma escolha estratégica fundamental: podem evoluir para um bloco de confrontação com o Ocidente, contribuindo para a formação de uma nova Guerra Fria, organizada em torno da rivalidade entre os Estados Unidos e a China, ou podem afirmar-se como uma estrutura de diálogo e negociação com o Ocidente, destinada a promover uma transformação da governação mundial através de uma nova partilha de poder e de responsabilidades. Reforma da ordem internacional ou confrontação entre blocos. Esta é, a meus olhos, a alternativa de médio prazo que se coloca aos BRICS.

É perante esta escolha que o Brasil assume uma importância singular. Ao contrário da China, que disputa diretamente com os Estados Unidos a influência global, ou da Rússia, cuja relação com o Ocidente é marcada pelo confronto militar da Ucrânia, o Brasil não tem qualquer ambição de substituir uma hegemonia por outra. A sua tradição diplomática assenta na autonomia estratégica, no multilateralismo e na negociação. O Brasil pode, sobretudo, contribuir para que os BRICS se afirmem como interlocutores de uma negociação histórica, e não como protagonistas de uma nova divisão do mundo.

Esta função moderadora do Brasil não é apenas importante para os BRICS. É também do interesse estratégico dos Estados Unidos. Washington tem mais a ganhar com a presença, no interior dos BRICS, de uma potência soberana, autónoma e comprometida com o diálogo do que com o afastamento ou enfraquecimento dessa influência moderadora.

A vitória de Lula preserva a possibilidade de o Brasil exercer, no interior dos BRICS, uma influência favorável à negociação, ao compromisso e à reforma das instituições internacionais. A questão decisiva para os Estados Unidos não deveria ser, portanto, como enfraquecer os BRICS, mas como contribuir para que a sua afirmação se processe num quadro de diálogo e negociação. Os BRICS podem tornar-se um novo bloco de uma nova Guerra Fria ou uma plataforma para negociar uma nova ordem internacional. O Brasil de Lula pode ser uma das forças que ajudem a inclinar essa escolha para o diálogo.

 





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