Em suas explicações para o STF (Supremo Tribunal Federal) sobre lei estadual que veta cotas raciais nas universidades, o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), afirmou que a proibição está em sintonia com as “singularidades demográficas” do estado, com “a maior proporção de população branca do país”.
O argumento oficial catarinense, baseado em números surreais que nada justificam, me levou direto para Bacurau, a vila do sertão no Nordeste que dá nome ao filme dos diretores pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.
Chris, personagem da turma dos invasores/matadores estrangeiros, pergunta:
— Os que vocês mataram, eles eram amigos ou algo do tipo?
Forasteiro, personagem brasileiro da região sul do país, intercede:
— Amigos? Não… não atiramos em amigos no Brasil… Não somos dessa região.
Willy, outro invasor branco estrangeiro:
— Então, vocês são de onde?
Forasteiro:
– A gente é do sul do Brasil. Uma região muito rica, com colônias alemãs e italianas. Somos mais como vocês. (…)
Willy, espantado:
— Mais como a gente? Mas nós somos brancos, vocês não são brancos. Eles são brancos?
Willy joga a pergunta para o debate com o resto do grupo que está na mesa.
Terry, seu colega, responde:
— Eles estão mais para mexicanos brancos. Ela parece branca, mas não é branca. Os lábios e nariz entregam.
Kate conclui:
— É… estão mais para latinos.
O filme Bacurau, entre o faroeste e a ficção futurista (nem tão futurista assim), explica muita coisa do argumento do governador Jorginho Mello, um político obcecado em branquitude. Lembre-se que foi o mesmo político bolsonarista que, em uma festa na cidade de Pomerode (SC), em 2025, disse que o município se destacava “pela cor da pele das pessoas”.
Não são os números e nem as origens da branquitude de Santa Catarina, segundo o entendimento da Procuradoria-Geral da República, que farão vingar a lei local contra as cotas.
O que importa é que é inconstitucional, como definiu o STF. Por que a administração catarinense poderia, com exclusividade entre os Estados, eliminar a reparação histórica de negros e indígenas brasileiros?
A lei federal de cotas foi sancionada em 29 de agosto de 2012, na primeira gestão de Dilma Rouseff.
“Em inúmeros julgados, a Corte (STF) afirmou a legitimidade constitucional da adoção de critérios étnico-raciais como fator de igualação material inerente à política de cotas para ingresso no ensino superior ou para acesso a cargos e empregos públicos”, respondeu o procurador-geral Paulo Gonet ao governo de Santa Catarina.
Diante da obsessão de Jorginho Mello em exaltar a maioria branca de Santa Catarina — o que justificaria o fim da reparação histórica naquele Estado —, lembrei do primeiro cara que ouvi, nas ruas do Rio e no Congresso Nacional, a defender a ideia das cotas.
Sim, você acertou, ele mesmo: Abdias do Nascimento (1914–2011), paulista de Franca, intelectual, ativista, fundador do Teatro Experimental do Negro e deputado federal do PDT carioca de Leonel Brizola.
“É preciso não ter juízo para poder enfrentar esta doideira que é o racismo no Brasil”, dizia ele, para não perder a paciência diante de figuras da linha de Jorginho Mello.




