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quinta-feira, fevereiro 12, 2026
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O grande teatro da iniquidade: as aparências enganam (I)


BOMBA!

“BÊNÇÃO, ZÉ SIMÃO!” 

Esta crônica é sobre o maior palco do mundo, onde a peça em cartaz há mais de 500 anos se chama “As aparências enganam”. Um espetáculo de sucesso ininterrupto, com casa cheia e ingressos caríssimos, pagos por nós — a plateia cativa e, por vezes, anestesiada.

A arte do jogo de cena não é invenção nossa. Desde que o primeiro hominídeo trocou a força bruta por uma carranca estratégica, a humanidade aperfeiçoou a dissimulação. Reis usavam perucas e pós de arroz para forjar imponência; impérios erguiam coliseus para entreter o povo faminto com pão e circo. A aparência, minha gente, sempre foi o lubrificante das engrenagens do poder. No Brasil, contudo, elevamos a encenação à categoria de Belas Artes. Somos o Hollywood do Engodo, o Bolshoi da Farsa.

Nossa obra-prima, a joia da coroa dessa dramaturgia, é Brasília. Ah, Brasília! Vista de cima, parece um avião pronto para decolar rumo ao futuro. De perto, porém, a utopia se revela uma miragem de concreto brutal e vidro, com as linhas elegantes de Niemeyer prometendo uma era de ordem e progresso. Uma aparência impecável, asséptica, monumental. A propaganda perfeita de um país que deu certo. Exceto pelo detalhe de que não deu.

Para erguer essa cidade-símbolo no meio do nada, foi preciso importar um exército de gente que o Brasil oficial preferia ignorar: os candangos. Vieram dos cantos esquecidos da nação, trazendo na mala a esperança e, no corpo, a força de trabalho que construiria o sonho de terceiros. Trabalharam sob um sol inclemente, em condições que envergonhariam um faraó. Diz a lenda, nunca confirmada (e você duvida? eu não), mas sempre sussurrada, que alguns repousam nas fundações da cidade, seus corpos misturados ao concreto dos palácios. Que metáfora trágica! A modernidade brasileira, literalmente, erguida sobre os ossos dos seus trabalhadores.

Terminada a obra, os artistas principais — os operários — foram varridos para debaixo do tapete do Plano Piloto, empurrados para as cidades-satélites. Eram o “entulho indesejado” da construção, que precisava manter a aparência da cidade planejada, o palco limpo para a elite que viria ocupá-lo.

E que elite! Chegamos ao ato principal da nossa peça, o templo máximo da encenação: o Congresso Nacional. Ali desfila a fina flor do atraso, uma galeria de facínoras que faz a máfia siciliana parecer um bando de escoteiros. Vestem ternos bem cortados, falam empolado, citam a Constituição e posam de guardiões da moral. A aparência é de respeitabilidade, de liturgia do cargo.

A realidade, no entanto, é um roteiro de filme de gângster. O crime é a regra. Em nome da “família brasileira”, defendem privilégios, anistiam os seus e legislam em causa própria, perpetuando a iniquidade que os colocou lá.

Enquanto esse espetáculo de horrores se desenrola, quem de fato faz a “máquina do mundo” andar em Brasília? São os filhos e netos dos candangos. São eles que acordam de madrugada no Gama, em Ceilândia, em Taguatinga, para pegar ônibus lotados. São eles que limpam os gabinetes suntuosos, servem o cafezinho aos “doutores”, e dirigem os carros oficiais, garantindo que a cidade-aparência continue funcionando para os atores principais. São os invisíveis, os herdeiros daquele Brasil real, de suor e poeira, que sustenta o Brasil de mentira, de ar-condicionado e conchavos.

No fim das contas, o grande truque do teatro Brasilis é nos fazer crer que o problema está apenas nos atores de má qualidade. Trocamos (ou quase não trocamos) o elenco a cada eleição, mas a peça continua a mesma. Porque o problema, repito, não é o ator, mas o roteiro. Um libreto escrito há séculos, baseado na desigualdade e na exploração. A plateia segue atordoada, ora vaiando, ora aplaudindo, emocionada, sem nunca invadir o palco para reescrever a peça. “Mas o que que isso?!”, disse um tio meu, bolsonarista. “A gente tentou, taokay?! Invadimos!” Respondi só em pensamento: “Ferrou, a extrema direita está dominando o campo semântico da subversão.” Que festa de natal que nada, não tenho nem roupa pra isso e só boleto atrasado pra pagar. Eu, você leitora, leitor, e mais de 80% do povo brasileiro. E por que? Porque as aparências, elas enganam.

O povo visita Brasília durante sua construção em 1960. Foto de Marcel Gautherot. Fonte: Archdaily. Acervo Instituto Moreira Salles / Thomaz Farkas.





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