O personagem da semana não foi Lula, Bolsonaro, Trump, Zambelli ou Janja. Quando a gente acha que a política brasileira já não tem mais como surpreender, eis que uma investigação da Polícia Federal sobre desvio de cotas parlamentares nos revela o motorista do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ).
A PF descobriu que o homem que guia o carro de Sóstenes movimentou cerca de R$ 11 milhões de 2020 a 2024. A suspeita óbvia dos agentes é de que o motorista seja um “laranja” do líder do PL.
A acusação foi refutada em tom indignado pelo deputado. A justificativa para a movimentação financeira do homem foi dada com naturalidade. “Ele é um empresário de sucesso”, disse Sóstenes.
Que coisa maravilhosa. A politica e a polícia nos deram a oportunidade de conhecer esse ser humano incomum, que administra uma empresa de sucesso, com faturamento milionário, mas que em boa parte do dia atua como motorista particular do deputado, por R$ 4 mil mensais.
Ele tem paixão pela direção, talvez? Se for isso, por que não dirigir o próprio carro? Por que ficar a serviço de um parlamentar?
Mistério insondável da alma humana que talvez somente Sóstenes encare com naturalidade.
Ter o automóvel dirigido por um empresário que movimenta milhões não foi a única revelação surpreendente que a operação da PF nos trouxe. Teve também os R$ 430 mil encontrados pelos agentes no armário do deputado.
Resultado da venda de um imóvel consumada semanas antes, disse ele. Mas por que a transação foi feita em dinheiro vivo? Por que os maços de cédulas ainda estavam lacrados como saídos do banco? Sóstenes não contou a grana paga pelo imóvel?
Além dessas, há muitas outras perguntas inspiradas pelas revelações da operação Galho Fraco, da PF. Vários desses questionamentos foram feitos pelos jornalistas a Sóstenes Cavalcante, em entrevista coletiva.
O deputado falou à imprensa na costumeira entonação enfática, aprendida com seu líder, Silas Malafaia. Respondeu as perguntas tentando aparentar convicção. Mas as incoerências são tantas que não convenceu ninguém.
Sóstenes terá muito tempo para se explicar à polícia e à Justiça.
Por agora, é preciso destacar esse novo personagem que a política brasileira nos apresentou: o empresário que fatura milhões, mas decidiu viver a rotina simples de motorista particular do deputado do PL.
Sóstenes fez o contrário: apesar de declarar apenas R$ 5 mil em bens em 2022, fez transação mal explicada de um imóvel há poucas semanas por R$ 430 mil.
O parlamentar deveria aprender a lição de simplicidade do empresário que lhe serve de motorista.




