O professor nem pode falar mais


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Por Valter Mattos da Costa*

Durante as Guerras Médicas, na Antiguidade, diante da resistência dos atenienses a uma proposta estratégica, o general Temístocles teria dito: “Podes bater-me, mas escuta-me primeiro” (Plutarco, “Vida de Temístocles”, séc. I d.C.).

A cena simboliza a tragédia da razão que, mesmo ferida, ainda tenta se fazer ouvir. Quando a autoridade se recusa ao diálogo, transforma o dissenso em afronta e impõe o medo como método. Nesse gesto antigo sobrevive a metáfora moderna: há momentos em que falar é um risco e ouvir, um teste de respeito.

Nas relações sociais, desde os primórdios, o Homo sapiens sentiu a necessidade de viver em grupo e de se expressar. Primeiro, inventou a comunicação com gestos. Depois, provavelmente ao redor de fogueiras, surgiram as palavras. Milhares de anos depois, a escrita.

Desde então, professores não fazem outra coisa senão ler e escrever. São dezenas de planejamentos, centenas de avaliações, incontáveis instruções, relatórios, registros e pareceres.

Não bastasse os baixos salários, agora se restringe também o seu direito, democrático, de falar. Ironia fina: quem mais lê e escreve na escola, pouco a pouco, é convidado a calarse – é a tragédia contemporânea da razão escolar, simbolizada pelas imposições que os professore vêm sofrendo.

Não por acaso, em 2023, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro, o intrépido patriota, durante um evento pró-armas, comparou professores a traficantes – gesto que ilustra um ambiente político que prefere hostilizar a categoria a escutá-la. Quando o debate é substituído pela ofensa, uma espécie de “absolutismo” revisitado deixa de ser exceção – vira método.

Recentemente, o secretário municipal de Educação do Rio de Janeiro, Renan Ferreirinha, protagonizou uma cena autoritária durante um evento de conclusão de estágio probatório de profissionais de educação (período inicial de avaliação de servidores) – “um encontro de valorização e de escuta” (disse em vídeo um de seus subsecretários); entretanto, bastou ouvir o que não estava no script, para mudar o tom.

Ao ser questionado por uma professora sobre a demora em ser efetivada, após o seu estágio probatório, respondeu: “Você não é obrigada a estar aqui. Pode muito bem se levantar e seguir supertranquilo… Você não é obrigada nem a ser professora.” Acho que não é necessário dizer mais nada – a fala do secretário já diz tudo. Mas tais atitudes na Educação não são privilégio dele.

Em 2024, em Santa Catarina, o governador Jorginho Mello bateu boca com professoras durante a inauguração de uma quadra, ao ser questionado sobre o piso salarial. Elevou o tom e disse: “Não fale bobagem” – pois é, o nosso piso é uma tolice…

No artigo É, professor, também sobrou para o diretor e o coordenador, formulei o conceito de a Pedagogia da Métrica. Trata-se de uma lógica de gestão que transforma a escola em laboratório de metas, planilhas e protocolos – a palavra do professor importa menos que seus números. Tudo é métrica, com pouca ou nenhuma escuta.

Em outro artigo, A pedagogia da culpa: quando o sistema acusa seus professores, analisei como o fracasso da política educacional é reembalado como falha individual docente. A culpa recai sobre quem ensina, não sobre quem impõe as condições. O que preside as ações do professor é a régua, e a culpa, hierarquizada, a alimenta: um modelo tecnicista e moral de silenciamento.

A lógica que rege essa pedagogia da métrica lembra, em muitos aspectos, o “princípio de desempenho” descrito por Herbert Marcuse em “Eros e Civilização” (1955).

Para ele, as sociedades industriais avançadas converteram a produtividade em valor supremo, reorganizando inclusive os afetos e a linguagem segundo critérios de eficiência. O que importa não é o sentido do que se faz, mas a quantidade produzida.

Transportada para o universo escolar, essa racionalidade instrumental reduz a docência a um cumprimento de metas. É assim que a palavra do professor – crítica, viva e pedagógica – torna-se incômoda. Quando o que conta é o número, pensar se torna subversão.

Por isso afirmo: a pedagogia da métrica é a antítese das pedagogias de Paulo Freire. Enquanto o educador pernambucano propõe o diálogo como fundamento do ato pedagógico, o respeito ao saber da experiência real e a escuta como princípio de transformação, a métrica, ao contrário, impõe o monólogo dos indicadores e a mudez dos sujeitos.

Enquanto Freire busca conscientizar, o modelo tecnocrático procura neutralizar. Em vez da problematização do mundo, exige-se o cumprimento de objetivos estatísticos. Em vez do professor como sujeito histórico, tem-se o executor de tarefas.

A escola, nesse paradigma, deixa de ser espaço de emancipação para tornar-se uma linha
de montagem de resultados – o chão de fábrica.

Diante desse cenário de opressão, já que os gestores dos níveis centrais das secretarias de educação querem nos impor o silêncio, vamos, democraticamente, fazer valer a nossa voz. Já está mais do que na hora de tomarmos as ruas – porque quem cala, consente, e quem fala, resiste.

*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora





Fonte: ICL Notícias

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