O que explica o sucesso de antifeministas como Eduarda Campopiano nas eleições?


 

“Eu não acho que o feminicídio seja algo que exista”. “Qualquer homem deveria ter o direito de me mandar de volta para a cozinha se eles quiserem”. “Eu sou a maior inimiga das feministas de São Paulo”. Nos últimos dias, nos chocamos com essas frases e com o fato delas terem saído da boca de uma jovem de 23 anos, Eduarda Campopiano, que se tornou a deputada eleitoral mais votada do estado de São Paulo, com 1.956.238 votos. Como é possível que uma mulher que pensa assim tenha sido eleita?

Campopiano é o exemplo mais chocante de um fato mais amplo: as antifeministas fizeram um sucesso estrondoso nas eleições. No total, eles conseguiram cerca de 6,5 milhões de votos em todos os parlamentos. Nunca tantas mulheres foram eleitas em uma única eleição para a Câmara de Brasília e o Brasil nunca teve tantas senadoras mulheres, por exemplo. Mas a maioria das eleitas este ano é antifeminista.

Enquanto mulheres referência e fundamentais como Marina Silva e Benedita da Silva ficaram de fora, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis ocuparam as duas vagas do senado por Brasília. Reeleita com 560.223 votos, Julia Zanatta, aquela que usa uma coroa de flores que pode ser uma referência ao nazismo, comemorou seu sucesso desfilando pelas ruas com um chicote (para chicotear mulheres insubmissas, como na história de “O Conto da Aia?”).

Entender o fenômeno do auto-ódio pregado pelas antifeministas não é fácil. Mas uma coisa é fato: assim como os influenciadores da machosfera, como red pills e similares, as influencers que usam vestidos estilo anos 50 e se inspiram nas “trad wifes” são um sucesso de mercado. Elas arrasam nas redes sociais, lucram pregando submissão e perda de direitos e recebem milhares de likes. O sucesso nas redes sociais migra rapidinho para uma carreira na política, como essa ano nos mostrou.

Em uma eleição onde a extrema direita ganhou, essas mulheres não fizeram sucesso por acaso. As “trad wifes” e outros tipos de super conservadoras são um braço importante da extrema direita que tenta tomar o poder em todo o mundo (não é só no Brasil, sabemos).

A ideia de mulheres pregando a volta da submissão e a perda de direitos nos assusta, mas também é sedutora. Na página de Eduarda Campopiano no Instagram, onde ela coleciona 2,6 milhões de seguidores, homens agradecem a ela. “Você fala o que a gente não pode dizer”, comenta um, em um post onde a influenciadora comemora o Dia dos Homens. Mas muitas mulheres são seduzidas por esse discurso também, saudosistas de um tempo onde não podíamos trabalhar, ter conta no banco e votar, algo que, claro, elas nunca viveram.

Lembro de uma frase que o psicanalista Contardo Calligaris me disse: “liberdade demais gera angústia.” Talvez seja por isso que muitas mulheres parecem querer acabar com a liberdade tão duramente conquistada por aquelas que vieram antes de nós.

Gilead é aqui?

As eleitoras que se identificam com candidatas como Eduarda Campopiano devem também sentir que são superiores às outras mulheres. Deve ser reconfortante se sentir aliada dos homens, a camada mais privilegiada da população. Isso faz com que elas se sintam “mulheres diferenciadas”, como se elas fossem menos ferradas do que o resto de nós e assim pudessem escapar de ser “cidadãs de segunda classe”.

Muitos têm comparado o fenômeno da vitória do antifeminismo com o pesadelo distópico misógino narrado no livro “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, escrito em 1985. Faz sentido. A obra, também disponível como série de sucesso no Netflix, se passa em Gilead, um estado absolutista terrível que se instala nos Estados Unidos depois de uma revolução de costumes. Ali, mulheres usam uniformes que as cobrem, não têm direito algum e sofrem as mais variadas formas de tortura.

Apesar de todas as mulheres serem oprimidas pelo regime, há uma hierarquia entre elas. O exemplo mais emblemático é a privilegiada Serena Joy, esposa de um comandante. Ela é mestre em oprimir outras mulheres e uma das apoiadoras da “revolução”, mas, com o tempo, a gente descobre que ela começou como uma escritora que fazia livros sobre feminilidade e submissão. Quando a tal revolução ultraconservadora se instala, ela perde não só o direito de escrever, mas também de ler.

É possível que essa seja uma profecia do que pode acontecer com Eduarda Campopiano e sua turma? Não quero ser catastrofista, mas é óbvio que elas também serão vítimas das leis contra direitos das mulheres que vão votar e até criar.

Então está tudo perdido? Vamos virar Gilead e pronto? Não, calma lá. Apesar dos riscos da perda de direitos, falta combinar com a população. Será que vamos aceitar? Duvido. As jovens estudantes que ocupam as ruas do Brasil inteiro com bandeiras vermelhas e também do arco-íris e do feminismo mostram que não vai ser fácil acabar com os direitos das mulheres no Brasil.





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