ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x
Por Eduardo Villela*
Essa é uma pergunta que pode parecer bastante esquisita, a princípio. Mas, ao final deste texto, ela vai fazer sentido. Vamos por partes.
Começando pelo relógio. Existem duas formas de vermos as horas: usando um relógio analógico ou digital. Atualmente, com o advento dos celulares e dos smartwatches, a grande maioria das pessoas vê a hora em relógio digital. Para isso, somente dois números são necessários. Quatro algarismos separados ao meio por dois pontos. É dessa forma que nos situamos temporalmente no dia.
Em momentos pretéritos e/ou em outras civilizações, a posição do Sol no céu informava para as pessoas sobre qual momento do dia estávamos. É o que conhecemos como relógio solar. De fato, era
algo bem mais rudimentar e menos preciso. Porém, cumpria o seu papel.
Outra forma também de nos situarmos no tempo é usando um relógio analógico. Esse tipo de relógio já é mais parecido com o relógio solar. Por quê? Os dois relacionam o tempo com o espaço. No relógio solar, a hora pode ser inferida pela posição do Sol no céu. Se o Sol estiver próximo à vertical, isto significa que estamos próximos do meio do dia. Se o Sol estiver descendo e próximo de tocar a linha do horizonte, isto significa que estamos nos aproximando do início da noite.
No relógio analógico, a mesma lógica opera. Nós conseguimos inferir o tempo simplesmente pela posição dos ponteiros do relógio. Os números, que muitas vezes estão presentes em vários modelos de relógios, são completamente desnecessários. O relógio analógico traz uma percepção de espaço. E nós
conseguimos inferir não somente a hora pela posição dos ponteiros, mas também conseguimos ter uma noção de quanto tempo já se passou de uma determinada hora e quanto tempo ainda falta para outra. Conseguimos nos situar no tempo por meio da posição dos ponteiros. Isso tudo acontece porque relacionamos o tempo com o espaço.
A grande verdade é a seguinte: o tempo é uma grandeza abstrata. Ninguém consegue ver o tempo. Já o espaço, aqui representado pelo relógio analógico, pode ser visto. E a posição de um corpo no espaço, representada pela posição dos ponteiros no relógio, também pode ser vista. Dessa forma, associamos o tempo com o espaço. É assim que conseguimos “enxergar” o tempo.
Seguindo ainda nesta lógica, podemos associar cada posição do ponteiro do relógio com um símbolo diferente. Dessa modo, para saber o horário, basta que saibamos o símbolo do momento. Os ponteiros do relógio já não são mais necessários. Porém, perceba agora que, por mais que consigamos identificar o horário, perdemos toda a referência espacial (temporal) que o relógio analógico nos traz. Ficamos apenas com um símbolo cru. Se escolhermos números para substituir os símbolos, então temos o relógio digital. Assim, o relógio digital deriva do relógio analógico.
Como dito inicialmente, apenas 2 números, um para a hora e outro para os minutos, são necessários para identificar o momento temporal do dia. Falar os números em voz alta é fácil. Basta decorar 24 palavras diferentes e podemos informar qualquer horário do dia. Mas, conseguir fazer a associação desses números com a sua posição no espaço para conseguir “enxergar” o tempo é bem mais complicado. Requer um certo nível de abstração. E é exatamente por isso que muitas pessoas têm dificuldade para ver as horas em relógio analógico.
E a classe média, onde entra nessa história? Pois bem, no Brasil a classe média tem como característica se identificar com a classe dominante formada pelos ricos e super ricos. Ela se identifica e ainda defende as pautas apoiadas por esses grupos. Existem diversas explicações defendidas por diferentes sociólogos para esta tolice.
A proposta aqui é fazer apenas uma reflexão sobre números. Segundo o IBGE, a renda mensal de um indivíduo da classe B fica entre R$ 7.500,00 e R$ 23.200,00. Podemos associar esta classe à classe média brasileira.
Vamos supor, então, que a renda média da classe média seja de R$ 15 mil. Enquanto isso, os 0,1% mais ricos têm renda superior a R$ 95 mil, e os 10 homens mais ricos do Brasil têm uma renda estimada, de forma bem conservadora, de R$ 42 milhões mensais, em média. A renda de alguém que vive na fronteira da pobreza extrema é de U$ 64,50 por mês (equivalente a aproximadamente R$ 335).
Vamos então ficar com quatro números: 355, 15 mil, 95 mil e 42 milhões. Por enquanto, são apenas números (símbolos). Você consegue, agora, imaginar uma reta contendo uma escala e esses 4 números posicionados sobre ela? Você consegue imaginar a distância relativa (espaço) entre esses números na escala?
Se você conseguir, provavelmente você não tem dificuldade para ver as horas em relógio analógico e também consegue perceber, claramente, que 15 mil está muito mais próximo de 355 do que 95 mil. E está INFINITAMENTE longe de 42 milhões. Ou seja, se você é de classe média, você só se torna milionário se ganhar um prêmio na Mega-Sena (não vai ganhar, estatisticamente falando. Desculpe a sinceridade). Mas, se você perder o emprego, rapidamente você começa a enfrentar dificuldades financeiras e flerta com a pobreza. Isso tudo é um mero reflexo da posição desses 4 números na
escala.
Em suma, a classe média olha para sua renda mensal e a compara com a renda de outros grupos utilizando “relógio digital”. Ela conhece os números mas não sabe “enxergá-los”. Se o fizesse olhando o “relógio analógico”, talvez ela percebesse o quão longe ela está dos ricos e milionários. E, dado o conflito de interesses entre a classe dominante, que quer expandir o máximo que puder seus lucros, e a classe trabalhadora (média), que quer desfrutar de melhores salários e qualidade de vida, talvez a classe média conseguisse se situar no espaço (escala de rentabilidade) e lutar pelos interesses do grupo social ao qual ela realmente pertence.
*Cientista e engenheiro. É Mestre e Doutor em engenharia mecânica pela UFF e COPPE/UFRJ, respectivamente. Atualmente trabalha na Petrobras.
Fonte: ICL Notícias




