Em 6 de novembro de 2025, Tiririca anunciou no Instagram que deixaria São Paulo e se filiaria ao PSD para disputar uma vaga de deputado federal pelo Ceará. O vídeo é curto, direto, sem cenário produzido. “Agora é sem palhaçada, estou voltando pra (sic) minha terra”, disse ele. A informação circulou rápido, mas o gesto não é só uma troca de partido (do PL para o PSD) nem simplesmente o retorno ao estado natal. São Paulo voltou a ser usado como trampolim de carreiras eleitorais.
A vitrine-SP como tese
Há um conjunto recorrente de candidatos, que busca em São Paulo uma vantagem estratégica: além de votos, visibilidade nacional. O estado funciona como uma vitrine que amplifica figuras políticas e, em determinados ciclos, permite que subcelebridades, nomes emergentes ou políticos já conhecidos projetem uma trajetória que extrapola os limites da representação local.
Esse movimento cria um contraste imediato: o eleitor vota para ser representado, mas o candidato pode ter como prioridade não o enraizamento no território, e sim a construção de uma marca nacional. A conta implícita é simples: quanto maior for o colégio eleitoral, maior o potencial de exposição e de “arrasto” no sistema proporcional brasileiro.
Não é coincidência que o casal Moro tenha optado por São Paulo em 2022 — Rosângela concorrendo à Câmara; Sergio tentando, inicialmente, a Presidência pelo estado antes da controvérsia documental e da mudança de rota. Ambos são exemplos de como “passar por SP” vira, em alguns momentos, parte do projeto político.
E é justamente aí que o caso Tiririca reaparece com força. Seu desempenho em 2010 consolidou sua própria eleição e abriu vagas para outros nomes a partir de sua votação extraordinária.
A linha do tempo eleitoral do Tiririca em SP (TSE)
Se quisermos entender o motivo pelo qual Tiririca sairá de São Paulo a partir de 2026, precisamos olhar para a evolução de seus votos. A trajetória é clara, quase didática, um declínio contínuo que muda o seu cálculo político.
2010 — cerca de 1.353.820 votos
Seu auge. Tiririca foi o deputado federal mais votado do país naquele ano. O efeito “puxador” se materializou: por conta de seu excedente de votos, entraram Otoniel Lima (PRB), Vanderlei Siraque (PT) e Protógenes Queiroz (PCdoB). A presença dele remodelou a lista de eleitos.
2014 — cerca de 1.016.796 votos
Ainda ultrapassa 1 milhão, mas já evidencia desgaste da imagem inicial. Continua forte, mas perde quase 340 mil votos.
2018 — cerca de 453.855 votos
A queda se acentua. Parte da explicação está no desgaste do discurso de “renovação” associado a celebridades e no próprio cansaço do eleitor com figuras midiáticas que entregam pouco no Legislativo.
2022 — 71.754 votos
O tombo final: elege-se como o deputado menos votado entre os eleitos de SP. E, ironicamente, só chega à Câmara em 2023 porque é puxado pelo desempenho do Bolsonarismo paulista, especialmente Eduardo Bolsonaro e Carla Zambelli, que aumentaram o quociente do seu partido (PL) naquele ano.
Após três eleições consecutivas, a figura extravagante e criativa do candidato Tiririca perdeu tração justamente quando São Paulo, e o país, entraram numa lógica de radicalização guiada pelo bolsonarismo. O humor, que antes funcionava como diferencial, passou a parecer fora de lugar diante de campanhas cada vez mais agressivas. Nesse cenário, o espaço eleitoral dele se estreitou, e a migração para o Ceará deixa de ser apenas biográfica.
O movimento para o Ceará: biografia + cálculo
É evidente que há um elemento emocional no retorno ao nordeste. Tiririca é cearense e, no vídeo do anúncio, repete: “Estou de volta à minha terra”. Isso importa, a política não é feita só de números. Mas reduzir o movimento a um retorno sentimental seria simplificar demais.
Ao somar a biografia ao cenário eleitoral, o gesto se torna mais legível. O espaço que Tiririca ocupava em São Paulo ficou estreito. Sem capital eleitoral robusto e com o Bolsonarismo dominando o campo conservador-popular, o antigo puxador de votos virou puxado — uma inversão que altera completamente o potencial de sua carreira política.
No Ceará, ele chega com uma marca ainda reconhecível, mas sem competição direta com subcelebridades de direita e sem a saturação paulista. O “teste real” será ver se sua figura ressoa no voto local, onde vínculos territoriais pesam mais que bordões nacionais.
O fato é que essa é a primeira vez em mais de uma década que Tiririca deixa de apostar na vitrine paulistana e tenta algo mais alinhado com suas origens. Mas esse movimento não é isolado. E aí voltamos ao paralelo que reforça o padrão.
Comparações rápidas: Rosângela Moro e Sergio Moro
Algumas linhas bastam para sintetizar o padrão:
Rosângela Moro: eleita deputada federal por SP em 2022, articulou em 2024 um projeto local malsucedido em Curitiba como candidata a vice-prefeita.
Sergio Moro: tentou transferir domicílio para SP em 2022 como então candidato à Presidência da República pelo Podemos, enfrentou controvérsia documental, mudou o caminho eleitoral e “retornou ao Paraná” para disputar e ganhar a cadeira do Senado.
Efeito comum: SP funcionou como palco de projeção nacional.
Esses casos evidenciam que o eleitor paulista foi, em diferentes momentos, usado por estratégias eleitorais e partidárias que colocaram no estado candidatos com pouca conexão real com suas necessidades. A vitrine-SP serviu mais como plataforma de projeto nacional do que como compromisso com o território. E o problema não é isolado: nesta mesma legislatura, o estado convive com parlamentares eleitos por São Paulo que se afastaram de suas responsabilidades como representantes locais por decisões pessoais, como Eduardo Bolsonaro nos EUA e Carla Zambelli na Itália. Nesse conjunto, o caso Tiririca surge como o episódio mais recente desse descompromisso: um ciclo no qual o voto paulista impulsiona carreiras que, depois, voltam as costas ao próprio estado.
O que Tiririca entregou em Brasília?
Aqui entra outro aspecto essencial para a leitura do eleitor: o que São Paulo recebeu em troca desses anos de exposição?
Tiririca construiu sua carreira com campanhas eleitorais criativas, ousadas (“Pior do que tá, não fica”) e como uma figura pública acessível e bem-humorada. No entanto, seu desempenho legislativo foi débil. Atuou modestamente em pautas culturais, participou de debates sobre o setor artístico, mas apresentou poucas proposições legislativas (12 proposições de janeiro de 2023 até novembro de 2025), não relatou nenhuma.

Sua “despedida” no Plenário em 2017, quando anunciou que deixaria a política, foi emotiva e repercutiu bem. Depois voltou. Houve votos polêmicos, alinhamentos pontuais e silêncios prolongados. Nada disso faz dele exceção: muitos parlamentares têm desempenho discreto. Mas, no caso dele, o contraste é maior porque o capital simbólico inicial era imenso.

6) Notas conclusivas
O caso Tiririca demonstra algo importante: São Paulo é grande demais para ser somente trampolim de carreiras nacionais e diverso demais para depender de subcelebridades que mudam de domicílio conforme o vento eleitoral. Voto é contrato local. Exige permanência, serviço, retorno, compromisso com o chão que votou.
O movimento dele para o Ceará não é um problema em si, é parte das regras democráticas.
Em 2026, a pergunta voltará ao centro: que tipo de candidato você quer? O engraçado ou o empenhado em representar suas bandeiras?
E, no fundo, a provocação final é esta:
Se o endereço eleitoral muda com o vento, que âncora prende o mandato ao chão de quem vota?




