Por Hamilton Harley*
Imagine seu filho sendo apontado na escola e no bairro como “adaptado”, ou seja, fora do “padrão”. A palavra pode soar suave no papel, mas na vizinhança, nos corredores escolares, nas conversas entre pais, ela rapidamente se transforma em sinônimo de “aluno fraco”, “problema”, “irrecuperável”. E, com a criança, carrega-se toda a família: “Olha lá o filho da Dona Lurdes, viu só? É dos adaptados”. Em um estado com profundas desigualdades sociais como São Paulo, a gestão Tarcísio decidiu resgatar a mais perversa e desacreditada das práticas pedagógicas: separar alunos em turmas “boas” e “ruins”.
O chamado Projeto Voar não faz os estudantes voarem na aprendizagem — faz com que muitos sequer queiram ir à escola. Vamos pensar: o que sente uma criança de 12 anos ao perceber que foi colocada na turma dos “mais lentos”? Que autoestima sobra para um adolescente que entende ser oficialmente classificado como “abaixo do básico”?
Uma escola que segrega alunos tidos como “bons ou ruins” passa o recado de que não espera nada de determinadas pessoas e faz com que essas pessoas também não esperem nada de si. Desvaloriza o sonhar. Pré-determina que, para um grupo de pessoas, alcançar o mínimo já é suficiente para elas.
A Secretaria de Educação, comandada pelo empresário Renato Feder, trata alunos como mercadorias em esteira de produção: uma linha rápida (padrão) e outra lenta (adaptada). A educação, no entanto, não é linha de montagem. É um processo humano complexo, que se nutre de convívio, diversidade e dignidade.
A hipocrisia do projeto chega a ser ofensiva. As escolas receberam ordens de usar “lógica aleatória” para nomear as turmas, tentando esconder a segregação. Mas as crianças e adolescentes não são tolos. Elas percebem quem está com quem, entendem os olhares diferentes, sentem o peso do rótulo. Enquanto isso, o subsecretário Daniel Barros declara com frieza que “os estudantes mais defasados já estão estigmatizados”. Em vez de combater esse estigma, o governo decide institucionalizá-lo. O estigma passa a ser carimbo oficial.
Além disso, podemos nos questionar: qual professor escolherá lecionar para a turma “adaptada”? Será loteria, castigo ou “vocação” para os menos experientes? Enquanto nas turmas “padrão” se promete “avançar com mais velocidade”, o que sobra para os “adaptados” é “explicar com mais calma” e “dar passos para trás”.
Que família aceitaria pacificamente essa classificação? A mãe que questionou a direção escolar já dá a resposta: ninguém quer seu filho marcado como problemático. Que trocas de aprendizado são perdidas com essa segregação? Alunos com diferentes habilidades, vivências e ritmos aprendem uns com os outros. O estudante que tem facilidade em matemática pode ajudar o colega que domina a expressão oral. Aprender a conviver com diferenças é lição tão crucial quanto qualquer conteúdo curricular. A escola pública deveria ser espaço de acolhimento, integração e não de triagem social.
O projeto é a confissão de um duplo fracasso. Primeiro, da padronização curricular imposta pela própria gestão Tarcísio, que amarra os professores a slides e cronogramas rígidos, impedindo-os de adaptar o ensino às reais necessidades dos alunos. Segundo, da incapacidade de enfrentar as verdadeiras causas da defasagem: escolas precarizadas, turmas superlotadas, professores desvalorizados.
Em vez de investir em apoio pedagógico personalizado, redução de alunos por sala, formação docente de qualidade e recursos para atendimento às dificuldades específicas, opta-se pela solução mais barata, cruel e ineficaz: segregar e rotular. É mais fácil separar as crianças do que enfrentar os déficits históricos da educação paulista.
As décadas de 1980 e 1990 já nos ensinaram o resultado dessa política: aumento da evasão escolar, aprofundamento das desigualdades, e gerações de jovens marcados pelo estigma da “turma dos mais fracos”. Agora, sob um nome falacioso e a promessa de avaliação por “um time de Harvard”, repete-se o mesmo erro.
A pergunta que fica é: quantas crianças precisarão sofrer com essa política até que os dados mostrem o óbvio? Enquanto isso, nas escolas paulistas, constrói-se não uma geração que voa, mas uma geração que carrega nas costas o peso de um rótulo humilhante com a autorização do Estado.
*Doutor em Educação e coordenador executivo do programa de Educação em Direitos Humanos do Instituto Vladimir Herzog




