Por Valter Mattos da Costa*
Acordei ontem com a notícia que muitos julgavam talvez impossível: Jair Bolsonaro foi finalmente preso (ainda que preventivamente).
Como professor da rede pública, que atravessou anos de ataques à educação, ao pensamento crítico e aos direitos sociais, senti algo diferente – não euforia, mas a consciência daquele clichê, de que a História às vezes tarda, mas chega.
Durante anos, assisti à construção de uma máquina política sustentada no ódio, na mentira e no desprezo institucional. Um projeto autoritário que flertou abertamente com o fascismo, que estimulou violência, sabotou a ciência, incentivou armas e corroeu o tecido frágil da democracia brasileira.
Nada disso é opinião; está registrado nos processos, nas investigações e nos crimes pelos quais agora responde (e nas 700 mil morte na pandemia).
A prisão não é vingança (para muitos até é). É consequência. Quando a lei alcança quem se considerava acima dela, o país respira um pouco melhor.
Para quem vive a escola pública, esse gesto tem um valor simbólico: mostra que o autoritarismo tem limites e que o ataque sistemático aos trabalhadores, aos professores e às instituições não ficará impune.
Penso nas próximas gerações. Que elas saibam que a democracia não se mantém sozinha. Que aprendam que o autoritarismo não pode ser normalizado. Que o país, apesar de suas contradições, ainda é capaz de dizer basta.
Hoje, sentimos o peso da História se mover. E isso importa.
*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História
social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora




