Por Cleber Lourenço
As prisões do núcleo civil e militar do 8 de janeiro deram ao Brasil a sensação de que, enfim, o Estado começou a fechar as contas com o golpismo. Generais recolhidos, ex-presidente na PF, operadores diretos atrás das grades. Um acerto necessário. Mas, convenhamos: essa é a parte fácil da equação. A parte dura — a que envolve dinheiro, estrutura, logística, influência econômica, poder real — segue intacta. A máquina que financiou e viabilizou o golpe permanece funcionando, sorrindo para fotos oficiais e circulando livremente entre Brasília e o país profundo.
Porque o 8 de janeiro não surgiu do nada. Não foi obra de “pessoas emocionadas” ou de fanáticos isolados. Foi um projeto político turbinado por setores empresariais, grupos econômicos e instituições que deram o suporte material e moral para que a intentona bolsonarista prosperasse. O golpe teve financiamento. Teve tratores, ônibus, alimentação, tendas industriais, diárias, transporte interestadual, alojamento e até coordenação estratégica.
Um áudio de Mauro Cid deixa o esquema escancarado: o general Mário Fernandes dizia estar orientando “o pessoal do agro”. Não era metáfora. Era cadeia produtiva, capital organizado, gente com capilaridade, frota e dinheiro para mover massas de um estado para outro. Não era o Brasil profundo espontâneo — eram estruturas com CNPJ, com histórico, com musculatura. Gente que conhece Brasília por dentro, que negocia bilhões com o governo federal e que, na primeira oportunidade, ajudou a bancar uma aventura golpista.
E não adianta tratar isso como loucura ocasional. Alguns dos grupos e figuras que se esconderam atrás desses CNPJs são os mesmos que apoiaram o golpe de 1964, enriqueceram na ditadura, financiaram repressão e anos depois mostraram disposição em repetir tudo outra vez, para a sorte da democracia e até mesmo deste jornalista que vos fala, perderam. A história não se repete como farsa — se repete como rede de interesses. E essa rede não foi tocada.
As Forças Armadas também têm sua cota institucional de responsabilidade. Não foi só omissão — foi contribuição ativa. Os quartéis acolheram golpistas, alimentaram acampamentos e deixaram que a radicalização fermentasse dentro de suas portas. A nota das três Forças de 11 de novembro de 2022, relativizando o resultado eleitoral e abrindo margem para contestação organizada, foi o selo institucional que faltava para multiplicar barracas, ônibus e escaladas.
O caso de Brasília virou símbolo dessa complacência. O QG do Exército transformou-se em uma espécie de prefeitura informal do acampamento: limpeza, organização, circulação livre, proteção informal. Enquanto isso, ali dentro, grupos armados planejavam atentados, estocavam explosivos e articulavam crimes. Tudo isso com comandantes olhando para o teto — alguns, inclusive, flertando ativamente com a ideia de sublevação.
E a elite econômica, acredite, sabe jogar dos dois lados. Em 2023, pouco depois do 8 de janeiro, ouvi de membros do governo, durante o lançamento do Plano Safra, algo que nunca esqueci: “alguns dos que estão aqui hoje aplaudindo o presidente Lula são os mesmos que meses atrás financiavam os acampamentos e o 8 de janeiro”. Essa frase captura com precisão a dissonância: há gente que tenta derrubar a República num mês e, no seguinte, pousa sorridente em evento do governo — como se nada tivesse acontecido.
Os CPFs estão sendo punidos — e precisam ser. Mas isso não toca na engrenagem que realmente sustenta as aventuras autoritárias no Brasil. Essa engrenagem tem marcas, CNPJs, legados familiares e décadas de poder acumulado. Enquanto ela não for responsabilizada, apenas prendemos a parte mais barulhenta do problema. A parte forte, estruturada, lucrativa e reincidente segue onde sempre esteve: sentada na cabeceira da mesa, financiando o passado, o presente — e, se ninguém mexer nisso, o próximo golpe.




