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quinta-feira, fevereiro 12, 2026
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Os heróis que queremos em praça pública


Primeiro dia do ano e uma certeza velha: Para o esquecimento ou a eternidade, o tempo é implacável. As promessas de ano novo sucumbem rápido, mas as ações que efetivamente movemos ao longo dos meses podem ecoar para sempre. Uma das ações que 2026 pode deixar para  a posteridade é entronizar em praça pública Tata Tancredo, religioso de matriz africana responsável por popularizar a homenagem à Iemanjá nas praias, na passagem de ano. Foi lá nos idos dos anos 50, 60 e 70 que Tata e outros religiosos deram origem à festa que há poucos dias foi reconhecida pelo Guinesse Book como o maior reveillón do mundo.

Há alguns anos, uma das grandes polêmicas que incendiou as redes foi aquela que questionava o fato de ainda hoje, em pleno século 21, o país que dizimou indígenas e que mais tempo permaneceu no regime escravocrata ter bustos, estátuas e nomes de ruas homenageando personagens colonizadores sanguinários e senhores de engenhos escravizadores cruéis.  Desde então, algo se moveu. Por iniciativa da ativista e acadêmica Etiene Martins, por exemplo, a cidade de Belo Horizonte tem hoje estátuas de duas das célebres filhas de Minas Gerais: Lélia Gonzalez e Carolina Maria de Jesus.

O último réveillon foi um desses momentos em que o grupo que é historicamente preterido em todos os espaços ousou reivindicar a mesma atenção que outras denominações religiosas. O professor doutor e babalaô Ivanir dos Santos questionou à prefeitura o motivo pelo qual as religiões de matriz africana, criadoras da festa na praia, não tinham a mesma atenção do poder público na referida celebração que o grupo evangélico, que há dois anos tem um palco só para si: o palco gospel.

A reivindicação, em bases muito educadas, diga-se, provocou uma reação indignada do prefeito Eduardo Paes, que chocou-se com o preconceito “dessa gente”.  Imagina, ousar questionar e querer, não exclusividade, mas atenção e cuidado na tradição que ela mesma criou, não é mesmo? A absurda grosseria gerou reações diversas, até que os jornalistas Aydano André Mota e Flávia Oliveira tiveram a excelente e emocionante ideia de encontrar um lugar na orla para uma estátua de Tata Tancredo.

Por falar em emoção, passei os últimos dias de 2025 lendo, pesquisando e estudando. Topei com algo absolutamente triste, revoltante e ao mesmo tempo comovente, cheio de fé e amor. Foi no jornal Diário do Rio de Janeiro, do ano de 1840, que encontrei o seguinte anúncio (Atualizei a grafia das palavras para melhor entendimento e os grifos são meus):

FUGIU da casa da Rua do Aljube, n.107, no dia 17 do corrente, uma preta de nome Maria Thereza, de nação Cassange, ainda moça. Esta preta achava-se doente, em uso de remédios, assistida de médico e, na madrugada deste dia, aproveitando a saída dos parceiros para a Carioca, fugiu levando uma trouxa de roupa. Há desconfiança de ter sido seduzida, a título de se curar de feitiços, em que ela acredita, pois várias vezes dizia que sua moléstia não podia ser curada por médico. Protesta-se usar todo o rigor da lei contra a quem a tem acoitada, (pois pelas muitas diligências empregadas está quase descoberto) não só pelo valor da preta, no caso de morrer, como pelo furto da mesma. Quem dela der notícias na casa mencionada receberá alvissaras.

Aqui temos uma mulher que sabia que a medicina da época —, aquela mesma que acreditava em miasmas, tratava tudo com sangrias e outros procedimentos inócuos — não daria conta da sua questão. Talvez ela soubesse que junto ao seu grupo religioso teria acolhimento, tratamento espiritual e físico mais eficaz do que trancafiada em uma masmorra caseira.

Maria Thereza sabia do que podia lhe ocorrer. Ela certamente via pelas ruas os seus e as suas com ferros no pescoço, na cabeça, na boca… carregando o peso de castigos terríveis por tentarem não apenas a liberdade de ir e vir, mas também a de ser quem eram.  Maria Thereza não foi só, ela foi com os companheiros. Maria Thereza era procurada pelo valor monetário que possuía, não por ser um ser humano necessitado de cuidados e de vida.

“Essa gente” passou por tudo isso e segue de pé. A imagem de Tata Tancredo fincada no cartão postal mais famoso do Brasil será uma lembrança não da dor, mas da vitória sobre ela e sobre o recorrente desejo de calar as vozes que insistem em se insurgir.

Feliz ano com fé, força e amor.





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