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Por Prof. Dr. Ivanir dos Santos
Você já parou para pensar e refletir sobre a diferença entre racismo estrutural, racismo institucional e racismo cotidiano? Antes de começarmos a falar sobre essas definições, é importante pontuar que, possivelmente, pessoas negras já experimentaram, ou vão experimentar ao longo de suas vidas, uma das múltiplas faces do racismo, ou melhor dizendo dos racismos.
E por isso, para que possamos nos fortalecer e nos engajar na luta antirracista no Brasil precisamos fazer algumas reflexões sobre os racismos de todos os dias e como ele, o racismo, afeta diretamente as pessoas pretas.
Buscando fazer reflexões dentro de uma proposta de educação antirracista ressalto que no livro Memórias da Plantação, publicado em 2019 pela editora Cobogó, ao analisar as múltiplas formas do racismo na sociedade a psicanalista Grada Kilomba aponta e conceitua três aspectos do racismo, o racismo estrutural, que acontece quando “pessoas negras estão excluídas da maioria das estruturas sociais e políticas”.
O racismo institucional, “que se refere a um padrão de tratamento desigual nas operações cotidianas”, tais como, em sistemas e agendas educacionais, mercado de trabalho, justiça criminal, como bem conhecemos aqui no Brasil. E o racismo cotidiano “refere-se a todo vocabulário, discursos, imagens, gestos, ações e olhares que colocam o sujeito negro como o outro/a outra”.
Assim, o letramento racial, que emerge como um ato político e descolonizador, precisa ser acionado pra que possamos compreender como ainda hoje a memória colonial é usada para fortalecer privilégios, estabelecer critérios de diferença, de superioridades e criar barreiras invisíveis de ascensão social, política e econômica das pessoas negras.
Mas aí possivelmente você pode dizer internamente que “são apenas crianças” em uma situação de mal-entendido. Pois bem, não existe “mal-entendido” quando os casos de violências têm como base os racismos. Existe sim, um processo ainda em curso de naturalização dos racismos que projeto o corpo negro como inferior e projeta o continente africano subsaariano como o lugar de onde nunca deveria ter saído.
Destarte, compreendo o racismo como um dos principais produtos culturais da herança do colonialismo europeu e que além de fabricar relações de hierarquia também fomenta as desigualdades. Um produto extremamente nocivo para a nossa sociedade, construído sobre a ideia de superioridade e privilégios que não estão ligados necessariamente à questões financeiras, pois o racismo, enquanto produto, seja dentro ou fora do Brasil, está entranhando nas relações sociais e culturais.
Por isso, é importante saber em qual contexto essas violências ocorrem, para que possam ser identificadas e denunciadas.
Fonte: KILOMBA, Grada. Memorias da Plantação- Episódios de racismo cotidiano; tradução Jess Oliveira. 1. ed. – Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
* Prof. Dr. Ivanir dos Santos é professor e orientador no Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ; Conselheiro Estratégico do CEAP e autor e idealizador da série Resistência Negra, da Globoplay
Fonte: ICL Notícias




