Por Igor Mello
A penetração dos negócios do Banco Master no governo Cláudio Castro (PL-RJ) vão além da Rioprevidência, instituto que cuida das aposentadorias dos servidores públicos. A coluna também identificou vínculos com a Cedae, além de autorização para atuar com crédito consignado para os aposentados do estado.
Ao todo, os investimentos de órgãos e empresas do governo do Rio em aplicações e fundos ligados ao Banco Master chegam a quase R$ 3 bilhões.
Grande parte do valor foi destinado após o início da crise reputacional na instituição financeira, a partir do fim de 2023.
Cerca de R$ 1 bilhão foram investidos em Letras Financeiras –aplicação que não é coberta pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que protege os correntistas em caso de insolvência de instituições bancárias.
O Banco Master foi alvo da Operação Compliance Zero na manhã desta terça-feira (18) para apurar supostas irregularidades na gestão da instituição financeira. O principal controlador do banco, Daniel Vorcaro foi preso, assim como seu sócio Augusto Lima.
R$ 200 milhões da Cedae
Com seus principais ativos privatizados pelo governo Castro em 2021, a Cedae, empresa pública de saneamento do Rio, investiu cerca de R$ 200 milhões em CDBs (Certificados de Depósito Bancário) do Banco Master.
Segundo a coluna apurou, o processo administrativo que viabilizou o investimento foi aberto em novembro de 2023. A documentação está sob sigilo.
O aporte aparece pela primeira vez no relatório trimestral da Cedae no primeiro trimestre de 2024.
De acordo com o último balanço disponível, do segundo trimestre de 2025, a Cedae tinha o montante de R$ 248 milhões investidos no Master.
A coluna tenta contato com a Cedae.
Consignado dos aposentados
A Secretaria da Casa Civil do governo Castro autorizou a Credcesta, cartão de crédito consignado ligado ao Banco Master, a oferecer seus serviços para aposentados e pensionistas da Rioprevidência, inclusive com a possibilidade de desconto diretamente na folha de pagamento.
O contrato foi assinado em 27 de março de 2025 e tem prazo de vigência de um ano.
Após a operação, deputado estadual Luiz Paulo (PSD-RJ) –autor de diversas denúncias sobre transações entre o governo Castro e o Banco Master aos órgãos de controle– apresentou um projeto de lei suspendendo o convênio entre o o governo do estado e a Credcesta. Além disso, o projeto determina a retenção dos valores descontados dos aposentados e pensionistas para ressarcir os cofres públicos do possível rombo deixado pela quebra do Banco Master.
R$ 2,6 bilhões da previdência
O TCE-RJ constatou que a Rioprevidência, fundo previdenciário do estado do Rio de Janeiro, aportou mais de R$ 2,6 bilhões em ativos administrados pelo Banco Master.
O valor corresponde a mais de 25% dos valores aplicados pela Rioprevidência, segundo a apuração do TCE-RJ.
O TCE cita como agravante o fato de R$ 1,1 bilhão terem sido aplicados em Letras Financeiras, aplicação que não está sujeita à cobertura do FGC.
Dois aportes, que somaram R$ 100 milhões, foram feitos em um fundo ligado ao Banco Master que tinha 96,125% de seus ativos em ações da Ambipar –companhia que está derretendo na bolsa.
Segundo levantamento feito pelo deputado estadual Luiz Paulo, a Rioprevidência já perdeu ao menos R$ 25 milhões só com essa aplicação, por conta da desvalorização das ações da Ambipar.
O fundo no qual o governo do Rio fez o investimento, o Texas I Fundo de Investimento em Ações, é alvo de um processo na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), órgão que fiscaliza o mercado de capitais, pela suspeita de ter praticado manipulação de mercado justamente com as ações da Ambipar.
O tribunal encontrou uma série de irregularidades nos aportes feitos pela Rioprevidência em outros dois fundos ligados ao Banco Master. Em um deles, o órgão fluminense foi o único cotista. Em outro, excedeu o limite de 15% do patrimônio do fundo quando do aporte inicial.
Em 14 de maio, um acórdão do TCE-RJ fez um alerta aos gestores da Rioprevidência sobre as irregularidades ligadas ao Banco Master e ressaltou que poderiam ser responsabilizados pessoalmente caso mantivessem esse tipo de negócio.
Ainda assim, as transações não pararam. A Rioprevidência fez 16 aportes, que totalizaram R$ 1,1 bilhão, nos fundos ligados ao Banco Master entre 20 de maio e 25 de julho — um intervalo de apenas 66 dias.
Em novo acórdão publicado em 8 de outubro, a conselheira do TCE-RJ Marianna Montebello Willeman afirmou que o diretor-presidente da Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, ignorou ofício enviado pelo tribunal alertando sobre risco pessoal para os tomadores de decisão que insistissem em manter os aportes irregulares nos fundos ligados ao Banco Master.
Segundo a conselheira, “a falta de manifestação sobre tal comando, aliada à continuidade dos aportes em 2025 (inclusive em veículos administrados pelo Master e em LFs não identificadas), revela,no mínimo, falta de prudência dos membros da alta gestão do Rioprevidência e reforça a necessidade de tutela inibitória imediata”.
Ela ainda destacou a falta de transparência em relação aos investimentos feitos pelo fundo previdenciário. Segundo a decisão, diversos documentos obrigatórios não foram publicados tempestivamente. É o caso do Plano Anual de Investimentos de 2025 e o Relatório Anual de Investimentos de 2024.
“Esse SILÊNCIO INFORMACIONAL impede o controle social, fragiliza a accountability e dificulta a eventual correção de rota – exatamente o oposto do que se espera de um gestor previdenciário sob escrutínio”, conclui a conselheira.
RioPrevidência rebate TCE-RJ
A RioPrevidência publicou uma longa nota rebatendo o acórdão do TCE-RJ. Segundo o órgão público, os ofícios enviados pelo tribunal não foram respondidos por falta de tempo hábil.
“O Rioprevidência reforça que os recursos aplicados nesses fundos nunca transitaram nem foram alocados em ativos do Banco Master, sendo direcionados diretamente aos ativos dos fundos, compostos majoritariamente por títulos públicos federais e ações negociadas na B3”, diz a nota.
Na resposta a Rioprevidência “reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência e a segurança na gestão dos recursos previdenciários, reiterando que não realizou novas aplicações no conglomerado Master desde agosto de 2024, e que atua de forma técnica, responsável e colaborativa com todos os órgãos de controle, garantindo a proteção do patrimônio dos servidores públicos do Estado do Rio de Janeiro e a sustentabilidade do sistema previdenciário estadual”.




