os US$ 12 milhões que nunca foram de Luciana Gimenez


Por Leandro Demori

Há um padrão conhecido no jornalismo que se propõe a competir com a velocidade das redes sociais: ele erra. O caso do criminoso Jeffrey Epstein vem se provando, diante da avalanche de informações disponíveis a qualquer pessoa, uma lição de manual para os tempos atuais. Depois de publicar – sem checar – que Lula teria falado com Epstein pelo telefone quando estava preso em Curitiba (mentira desmontada na edição passada da revista Liberta), agora foi a vez da apresentadora Luciana Giménez ser jogada no centro do caso de modo irresponsável.

Bastou que um documento pingasse nas redes sociais que a fábrica de manchetes apressadas entrou em ebulição. Segundo essas fabricações, Giménez “recebeu” mais de 12 milhões de dólares de Epstein.

Com seu nome ligado ao caso graças à imprensa, a redes sociais fizeram o restante do trabalho: “condenaram” a apresentadora como se ela fosse parte da rede criminosa de Epstein. Acontece que esse dinheiro nunca foi transferido para Gimenez, como mostram os próprios documentos publicados.

O que o relatório realmente mostra

O registro em questão é um “Incoming/Outgoing Wires, Checks and ACH Report”, datado de 19 de fevereiro de 2019, identificado nos autos do SDNY (Distrito Sul de Nova York). Ou seja, um Relatório de Transferências Bancárias (Entrada e Saída), Cheques e Transações ACH (Automated Clearing House), um sistema eletrônico de compensação bancária muito usado nos EUA para transferências entre contas (similar a TED/DOC/PIX no Brasil).

No campo “Beneficiaries / Issuer Name” aparece: Luciana Gimenez Morad. A leitura apressada para por aqui e decide publicar alguma parecida com jornalismo. A leitura responsável continua.

Os dados mostram claramente uma movimentação, em uma conta da apresentadora, de 22,09 dólares. Isso mesmo: vinte e dois dólares e nove centavos. E mais explicação não há, nem mesmo quem teria feito o depósito. (mais tarde, Gimenez publicou documentos mostrando que era uma movimentação entre contas dela mesma, a corrente e a investimento). O que essa informação faz perdida no meio dos arquivos de Epstein? O FBI não explicou, como não explica muita confusão que permeia o arquivo do criminoso e que favorece apenas aos demais bandidos que ainda estão soltos. Quanto mais caos, melhor.

O que a imprensa fez assim que percebeu o nome de Gimenez no arquivo? Errou a interpretação do documento, e atribuiu a ela o recebimento de mais de 12,6 milhões de dólares. Na versão publicada pelos veículos, a fortuna teria sido depositada por Epstein à brasileira. Em uma leitura menos apressada, vê-se claramente que o montante não tinha ido parar nas contas de Gimenez.

A conta estava vinculada a Epstein

O documento aponta que a movimentação envolve uma entidade chamada “The Haze Trust”. Em nenhum momento as reportagens jornalísticas (ou devemos chamar de “conteúdo”?) se deram ao trabalho de buscar o nome “The Haze Trust” na Internet. Isso tomaria tempo precioso na caça enlouquecida pelos cliques.

Em uma busca rápida no Google, encontrei documentação legislativa norte-americana no Senado comprovando que a “The Haze” pertece… ao próprio Epstein. Os documentos são petições para que as autoridades e os bancos entreguem movimentações financeiras do criminoso ao Congresso.

Ou seja: o valor de “US$ 12.608.253,53 estava associado a uma estrutura fiduciária vinculada a Epstein, desde sempre, sem nenhuma relação com Luciana Gimenez.

Muito barulho, pouco jornalismo

Casos envolvendo Epstein são, por natureza, explosivos. Mas explosão não pode ser método. Quando a imprensa abdica da leitura técnica e opta pela associação automática, produz manchete, levanta a audiência, gera polêmicas e debates, mas não cumpre seu papel de produzir informação confiável. E, neste e em outros casos, diverte a opinião pública com inocentes famosos enquanto os verdadeiros criminosos dão graças pela proteção em meio ao barulho.





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