Por Cleber Lourenço
A três dias do primeiro turno, as pesquisas Datafolha, Quaest e AtlasIntel mostram uma eleição altamente concentrada em Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com pouca movimentação entre os dois principais candidatos. Essa estabilidade cria uma dificuldade adicional para quem aparece numericamente atrás: Flávio não precisa apenas conquistar novos votos, mas crescer mais do que Lula para reduzir a distância.
No Datafolha divulgado nesta sexta-feira (2), Lula aparece com 42% das intenções de voto, contra 38% de Flávio. Em votos válidos, são 45% a 40%. Na Quaest, divulgada na segunda-feira (28), o placar é de 39% a 34%. A AtlasIntel/Bloomberg registra 45,3% para Lula e 42,2% para Flávio. Os três levantamentos, portanto, colocam Lula numericamente à frente no primeiro turno.
Mais importante do que comparar os percentuais de institutos que usam metodologias diferentes é observar o movimento dentro de cada pesquisa. E, nesse ponto, não aparece até agora uma mudança brusca na estrutura da disputa.
No Datafolha anterior, Lula tinha 40% e Flávio, 36%. Os dois cresceram exatamente dois pontos e chegaram a 42% e 38%. A diferença permaneceu em quatro pontos. Na Quaest, Lula passou de 37% para 39%, enquanto Flávio foi de 33% para 34%. A distância aumentou de quatro para cinco pontos.
A Atlas também não registrou uma virada. Lula passou de 45,8% para 45,3% e Flávio, de 43,4% para 42,2%. As duas variações ficaram dentro da margem de erro, e a distância nominal entre eles passou de 2,4 para 3,1 pontos.
É essa estabilidade que pesa na reta final. Se os dois candidatos crescem ou recuam juntos, a ordem da disputa não muda. Para Flávio alcançar Lula no primeiro turno, seria necessária uma movimentação relativa a seu favor maior do que a observada nas últimas rodadas.
Eleitores estão cada vez mais decididos
Outro número ajuda a explicar por que grandes mudanças ficam mais difíceis à medida que a votação se aproxima.
Segundo o Datafolha, 82% dos eleitores que já escolheram um candidato dizem estar totalmente decididos, contra 80% na semana anterior. Apenas 17% admitem mudar de voto até domingo.
A cristalização é ainda maior justamente entre os dois principais candidatos: 88% dos eleitores de Lula e 87% dos eleitores de Flávio afirmam estar convictos da escolha. Entre os eleitores de Augusto Cury, o índice cai para 62%; entre os de Ronaldo Caiado, para 55%; e entre os de Renan Santos, para 61%.
Isso mostra onde ainda existe maior possibilidade de movimentação: não principalmente dentro das bases de Lula e Flávio, mas entre os eleitores das candidaturas menores e entre aqueles que ainda não consolidaram uma escolha.
A pesquisa espontânea do Datafolha reforça esse processo. Lula passou de 36% para 39% e Flávio, de 27% para 31%. Ao mesmo tempo, a parcela que não sabia em quem votar caiu de 18% para 13%.
Ou seja, a reta final está produzindo definição do voto, mas até agora sem alterar substancialmente a posição dos dois primeiros colocados.
Uma semana de fatos políticos sem ruptura nas pesquisas
A estabilidade chama atenção também pelo volume de acontecimentos que atingiram a campanha nos últimos dias.
Flávio enfrentou novas revelações sobre sua relação com Daniel Vorcaro. Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-dono do Banco Master registram cerca de três meses de conversas e referências a seis encontros entre os dois. Os registros também mostram tentativas de contato de Flávio nos quatro dias anteriores à prisão do banqueiro.
A campanha também foi atravessada pela controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida, que mobilizou candidatos, lideranças religiosas e decisões judiciais.
Lula, por sua vez, chegou à reta final com uma sequência de medidas e propostas de forte repercussão: reajuste de 15% do Bolsa Família, proibição das bets e promessa de fornecimento de canetas emagrecedoras pelo SUS.
O Datafolha mostra que essas medidas têm apoio majoritário. A proibição das bets é defendida por 78% dos entrevistados; 68% apoiam o fornecimento das canetas pelo SUS; e 64% são favoráveis ao reajuste do Bolsa Família.
Nada disso permite afirmar que uma determinada notícia ou medida tenha produzido diretamente uma oscilação eleitoral. Vários acontecimentos ocorreram simultaneamente e as variações precisam ser consideradas dentro das margens de erro.
O que é possível observar é que, mesmo diante de uma semana politicamente movimentada, não houve até agora uma ruptura clara na relação de forças entre Lula e Flávio.
Religião mostra uma das divisões mais nítidas
Os recortes religiosos ajudam a enxergar como as bases dos dois candidatos estão consolidadas.
Entre católicos, Lula chega à reta final perto de 50% nos três levantamentos. Tem 50% no Datafolha, 48% na Quaest e 49,8% na Atlas. Flávio registra, respectivamente, 32%, 29% e 40,4%.
Além da fotografia, houve movimento relevante em dois institutos.
No Datafolha, Lula passou de 45% para 50% entre católicos em uma semana, enquanto Flávio oscilou de 33% para 32%. A distância entre os dois nesse segmento passou de 12 para 18 pontos.
Na Quaest, Lula também cresceu cinco pontos entre católicos, de 43% para 48%. Flávio passou de 27% para 29%. A diferença aumentou de 16 para 19 pontos. A margem específica desse segmento é de três pontos percentuais.
A Atlas não registrou o mesmo avanço. Lula ficou praticamente estável entre católicos, com 49,8%, variação inferior a um ponto em relação à rodada anterior. Flávio também permaneceu estável, com 40,4%.
O movimento ocorreu durante a semana em que a controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida ganhou espaço na campanha. A coincidência temporal é relevante para a análise, mas as pesquisas não permitem atribuir o avanço de Lula entre católicos exclusivamente ao episódio.
Entre evangélicos, Flávio mantém ampla vantagem
A fotografia se inverte entre os evangélicos.
No Datafolha, Flávio chega a 52%, contra 26% de Lula. Na Quaest, são 46% a 27%. Na Atlas, a diferença é ainda maior: 62,7% para Flávio e 20,8% para Lula.
Mas os institutos divergem sobre o movimento ocorrido nesse grupo.
No Datafolha, Flávio cresceu cinco pontos entre evangélicos, de 47% para 52%, enquanto Lula oscilou de 27% para 26%. A vantagem do candidato do PL passou de 20 para 26 pontos.
A Atlas encontrou movimento ainda mais forte. Lula caiu de 29,3% para 20,8% entre evangélicos, uma redução nominal de 8,5 pontos. Flávio avançou dois pontos e chegou a 62,7%.
A Quaest mostrou direção diferente: Lula passou de 23% para 27%, enquanto Flávio foi de 49% para 46%. A margem de erro específica entre evangélicos é de quatro pontos, o que exige cautela na interpretação dessas oscilações.
As três pesquisas, portanto, não permitem afirmar que houve uma movimentação uniforme entre evangélicos. Mas convergem na fotografia: Flávio mantém vantagem ampla nesse eleitorado, enquanto Lula lidera entre católicos.
Mulheres, Nordeste e Sul também dividem as bases
A diferença entre homens e mulheres aparece nos três levantamentos, embora em intensidades distintas.
No Datafolha, Lula tem 45% entre mulheres e Flávio, 35%. Entre homens, ambos aparecem com 40%. A Atlas encontra uma divisão ainda maior: Lula registra 57,4% entre mulheres, contra 32,9% de Flávio; entre homens, Flávio tem 52,4% e Lula, 32,1%.
A geografia eleitoral também é bastante definida.
No Nordeste, o Datafolha registra 56% para Lula e 26% para Flávio. A Atlas encontra 55,7% a 32,7%. No Sul, ocorre o contrário: Flávio tem 50% contra 30% de Lula no Datafolha e 54% a 32,2% na Atlas.
O Sudeste apresenta um cenário muito mais equilibrado. No Datafolha, Lula tem 40% e Flávio, 39%. Na Atlas, são 43,5% a 42,4%.
Os números ajudam a explicar a estabilidade nacional. Lula e Flávio chegam à reta final sustentados por grupos bastante definidos, com poucas evidências até agora de deslocamentos maciços entre essas bases.
Segundo turno é uma disputa diferente
A estabilidade do primeiro turno, porém, não significa que uma eventual segunda rodada repetiria a mesma diferença.
É justamente nesse ponto que as pesquisas apresentam outro cenário.
No Datafolha, Lula tem 48% contra 45% de Flávio em um segundo turno, diferença dentro da margem de erro. Na Quaest, os dois aparecem com 42%. Na Atlas, o empate é praticamente absoluto: 47,6% para Lula e 47,7% para Flávio.
A razão está na redistribuição dos votos das candidaturas menores.
O Datafolha mostra que, entre os atuais eleitores de Augusto Cury, 44% escolheriam Flávio num segundo turno e 30%, Lula. Entre os eleitores de Caiado, são 46% para Flávio e 30% para Lula. Entre os de Renan, 54% migrariam para Flávio e 28% para Lula.
Flávio, portanto, reduz a diferença quando o eleitor é colocado diante de uma escolha exclusivamente entre os dois principais candidatos.
Isso não elimina o efeito da estabilidade atual sobre o primeiro turno. São duas situações diferentes. Para ultrapassar Lula já no domingo, Flávio precisaria produzir nos últimos dias uma movimentação que as rodadas mais recentes de Datafolha, Quaest e Atlas ainda não registraram.
Rejeição também ajuda a cristalizar a disputa
Há outro obstáculo para grandes movimentos: os dois principais candidatos também concentram rejeição.
No Datafolha, Lula e Flávio têm exatamente 45% de eleitores que dizem não votar neles de jeito nenhum. Os índices são os mesmos da rodada anterior.
Isso ajuda a formar uma eleição com dois fenômenos simultâneos: bases muito fiéis e contingentes também elevados de eleitores resistentes ao adversário.
A reta final, portanto, não mostra ausência de disputa. Pelo contrário: os cenários de segundo turno permanecem apertados.
O que Datafolha, Quaest e Atlas mostram nesta semana é que essa disputa ocorre dentro de um eleitorado cada vez mais definido. Lula permanece numericamente à frente no primeiro turno nos três levantamentos, enquanto Flávio continua sem apresentar, nas rodadas mais recentes desses institutos, uma movimentação suficiente para inverter essa ordem.
Com poucos dias até a votação e mais de oito em cada dez eleitores de Lula e Flávio declarando convicção no voto no Datafolha, a variável central da reta final passa a ser justamente aquela que as pesquisas menos mostraram até agora: uma mudança significativa de comportamento entre os eleitores.





