Emilio Surita é sessentão, mas se comporta como um adolescente zoeiro, daqueles que sentam no fundo da sala de aula para sacanear a professora. É esse o clima inconsequente do programa Pânico, na Jovem Pan. Há sempre um sorriso malandro no canto da boca de Emílio, que no vídeo faz cara de quem se acha muito esperto ao incentivar os amiguinhos do programa (na verdade, seus subordinados) a dizerem as maiores atrocidades.
A simulação de juventude vem de quando o programa surgiu na rádio Jovem Pan, em 1993, misturando piadas, entrevistas e sucessos da música pop. A grande audiência fez com que a partir de 2003 fosse adaptado para a Rede TV e depois para a Band TV, onde os participantes eram humilhados na frente das câmeras e, por sua vez, humilhavam convidados e entrevistados.
Com o surgimento do bolsonarismo e a adesão remunerada da Jovem Pan ao ideário da extrema direita, Emilio e sua turma passaram a se ocupar cada vez mais de política. O apresentador manteve-se no figurino de garotão travesso, mas agora tratando de assuntos sérios, muito importantes para o país.
Sob o pretexto de fazer um programa pontuado por brincadeiras, o vovô-garoto espalhou mentiras das mais graves ao microfone: atacou reputações de esquerdistas, criticou as medidas de prevenção à covid-19, questionou o sistema eleitoral (isso para não falar em golpismo, homofobia…).
Por conta disso, tanto ele quanto a Jovem Pan tiveram que responder na Justiça algumas vezes.
Como o espírito de adolescente irresponsável não sai do sessentão Emílio, ele voltou a exercer a inconsequência que é sua marca: há poucos dias, inventou que a partir de 1º de janeiro quem movimentar mais de R$ 5 mil teria que pagar 27,5% de imposto.
A mentira circulou, especialmente nas redes sociais da extrema direita (para surpresa de zero pessoas), e foi rebatida pelo governo.
“A única verdade que mensagens falsas não querem contar é que: a partir de janeiro quem ganha até R$ 5 mil estará completamente isento do imposto de renda e quem ganha até R$ 7.350 terá desconto. Isso é o que os autores dessas mensagens falsas não querem que a população saiba. Não caia em fake news!”, observou o Ministério da Fazenda, em nota.
A Jovem Pan reconheceu a mentira e pediu desculpas. O problema é que a mensagem de retificação começa com uma palavra inadequada: “Erramos”.
Não. Erros acontecem involuntariamente. Algo bem diferente do que ocorreu: Emilio tirou da própria cabeça oca essa ficção, sem nenhuma fonte.
Foi proposital, não há dúvida.
Apesar de agir como adolescente, Emilio não é inimputável. Tem que receber punições mais duras do que as que recebeu até agora, para que seja impedido de lucrar com as mentiras que espalha.
Quem sabe assim passe finalmente a agir como um adulto.




