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quinta-feira, fevereiro 12, 2026
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quando a suspeita tenta virar prova


Por Cleber Lourenço

Já diria o brilhante Thomas Traumann: no Brasil não morremos de tédio. De fato, não morremos.

Infelizmente, meus esforços para me manter o mais longe possível do noticiário neste final de ano fracassaram. E aqui estamos nós.

O caso do Banco Master ganhou dimensão nacional não apenas pelo desfecho — a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025 —, mas pelo modo como esse desfecho foi rapidamente engolido por uma atmosfera de suspeita. Em poucos dias, o debate saiu do terreno das ilegalidades atribuídas ao banco e passou a orbitar em torno de versões, ilações e narrativas que sugerem irregularidades graves sem que, até aqui, tenham sido apresentadas provas materiais que as sustentem.

Liquidações bancárias não são decisões banais. São medidas duras, excepcionais, tomadas justamente para evitar que problemas localizados contaminem o sistema financeiro. Envolvem análises complexas de solvência, liquidez e risco sistêmico. Questioná-las é legítimo. Substituir o exame técnico por uma acusação difusa, não.

É nesse ponto que as críticas mais consistentes ao debate recente se concentram. Não se trata de interditar investigações nem de blindar autoridades. Trata-se de apontar um erro de método que o país já conhece bem: a transformação da suspeita em ponto de partida e da prova em detalhe secundário. Quando perguntas já nascem formuladas para sustentar uma tese, o risco é inverter a lógica básica do Estado de Direito.

O que se observa no caso do Banco Master é a substituição da presunção de inocência por uma presunção de culpa. Em vez de se exigir que quem acusa apresente provas, constrói-se uma narrativa em que autoridades públicas são chamadas a demonstrar que não pressionaram, que não interferiram, que não articularam nada de irregular. A acusação passa a ser tratada como dado, e a negativa, como suspeita.

Esse método não é novidade no debate público brasileiro. Foi amplamente utilizado nos tempos áureos da Lava Jato, quando a suspeita antecedia a prova, a narrativa precedia o fato e a presunção de culpa se impunha como regra informal. Os efeitos desse modelo são conhecidos: corrosão de garantias, confusão entre investigação e julgamento e um ambiente em que a acusação vale mais do que a evidência.

Há ainda um elemento que precisa ser tratado com mais honestidade intelectual: a relação entre jornalistas e fontes. Essa relação é saudável, necessária e estruturante do jornalismo profissional. Mas ela nunca é neutra. Toda fonte, especialmente a fonte em off, tem interesses ao levar uma informação a um jornalista. Interesses políticos, institucionais, econômicos ou pessoais. Ignorar esse dado básico é abdicar do senso crítico.

Por isso, o cuidado com fontes anônimas precisa ser redobrado, não relativizado. Se até mesmo delações formalizadas, com delatores identificados, compromissos judiciais e termos assinados exigem verificação rigorosa, contraditório e cautela editorial, o que dizer de informações repassadas sob anonimato absoluto? O off é ferramenta legítima, mas não pode ser tratado como selo automático de verdade, tampouco pode ser o alicerce de uma denúncia, principalmente se for uma grave.

O material que circulou nos últimos dias ajuda a entender esse deslocamento. Relatos indicam que autoridades do Judiciário, do Banco Central e da Polícia Federal teriam sido acionadas ou pressionadas no contexto do caso Master. Diante disso, personagens centrais decidiram falar publicamente. O diretor-geral da Polícia Federal negou de forma categórica qualquer pressão ou conversa relacionada ao banco. O ministro Alexandre de Moraes e o comando do Banco Central também vieram a público rechaçar as acusações.

Essas negativas não encerram automaticamente o debate. Autoridades podem errar, omitir ou mentir. Mas elas mudam, de forma decisiva, o patamar da discussão. Quando um ministro do Supremo, o diretor-geral da PF e o presidente do Banco Central negam em público, com nome e cargo, insistir apenas em versões anônimas deixa de ser investigação e passa a exigir um ônus argumentativo muito maior.

Há um ponto frequentemente ignorado nesse tipo de narrativa: em contextos de crise bancária, decisões regulatórias sensíveis e repercussão internacional, reuniões e contatos entre autoridades são não apenas normais, mas esperados.

Até aqui, portanto, o dado objetivo é simples e incômodo: nada foi confirmado. Não há prova material apresentada que demonstre interferência indevida, crime ou atuação irregular ligada às conversas mencionadas. Sustentar acusações graves nesse cenário significa aceitar que a suspeita vale mais do que o fato e que a ausência de prova pode ser preenchida por insinuação.

Ao desconsiderar as versões oficiais sem apresentar evidência concreta, assume-se implicitamente uma hipótese extrema: a de que múltiplas autoridades estariam mentindo deliberadamente em público. Essa hipótese é possível, mas extraordinária. E hipóteses extraordinárias exigem demonstrações à altura — não apenas a repetição de relatos indiretos.

O risco institucional se agrava quando esse ambiente de presunção de culpa passa a ser usado como combustível para campanhas políticas. A defesa do impeachment de um ministro do Supremo Tribunal Federal, com base em denúncias anônimas e sem comprovação factual consistente, representa a banalização de um instrumento extremo. Não é um detalhe retórico; é uma escolha com consequências profundas.

O Brasil já percorreu esse caminho. O impeachment da presidente Dilma Rousseff ocorreu sem a caracterização de crime de responsabilidade nos termos constitucionais. A naturalização desse expediente como solução política deixou um rastro de instabilidade institucional. Reeditá-lo agora, contra um ministro do STF, antes que os fatos estejam demonstrados, não fortalece a democracia. Fragiliza-a.

Enquanto o debate público se concentra em suspeitas ainda não comprovadas, movimentos institucionais concretos avançam quase fora do radar. E são eles que merecem atenção.

No Tribunal de Contas da União, o tom foi elevado. Em despacho assinado pelo ministro Jhonatan de Jesus, o TCU apontou indícios de “precipitação” na liquidação do Banco Master, tensionando a fronteira entre fiscalização legítima e ingerência sobre uma decisão típica da autoridade monetária. O sinal é claro: decisões técnicas do Banco Central passam a ser reavaliadas sob pressão externa.

No Supremo Tribunal Federal, decisões do ministro Dias Toffoli também contribuíram para ampliar a controvérsia. A mudança de instância, a decretação de sigilo e a paralisação temporária do andamento do caso acrescentaram opacidade a um processo já politicamente sensível. Esses movimentos não são neutros: deslocam o debate do campo técnico para o político e jurídico.

O efeito combinado dessas iniciativas é preocupante. Se decisões regulatórias podem ser suspensas, fragilizadas ou reabertas por meio de pressões institucionais e narrativas ainda não comprovadas, a previsibilidade do sistema financeiro é afetada. Em um setor que depende de confiança, esse tipo de incerteza cobra um preço alto.

O episódio do Banco Master, portanto, vai muito além de uma controvérsia sobre bastidores. Ele se tornou um teste sobre limites: do método, da presunção de inocência e da autonomia das instituições. Teste para a imprensa, chamada a não confundir suspeita com prova. E teste para o sistema político, que precisa decidir se continuará normalizando a presunção de culpa e o uso banalizado de instrumentos extremos.

Mais do que reconstruir versões, a questão central permanece aberta: o sistema de supervisão financeira brasileiro seguirá orientado por critérios técnicos, estabilidade e autonomia institucional ou passará a conviver com a lógica da suspeita permanente e da tentativa recorrente de reescrever decisões já tomadas?





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