Não eram oito horas da manhã e ousei colocar o lixo na rua. Uso o verbo ousar porque, para uma mulher negra, este simples ato pode lhe custar a vida.
Sou escritora e minha casa está barrotada de livros e papéis, muito papéis! Por mais que não goste do gênero, do tema ou do autor, jamais coloco livros no lixo, mas a papelada… Então, em uma operação contra a acumulação e os ácaros estou limpando a livraria em que se tornou minha casa e jogando fora papel, papelucho, papelão.
Atravessei a rua com dois sacos enormes e duas sacolas abarrotadas de material que pode muito bem ser reciclado. Atravessei a rua para deixar longe do lixo orgânico, tudo o que poderia ser útil para os catadores e catadoras que levam estes materiais para uma cooperativa próxima.
Voltei em direção à casa satisfeita. Missão cumprida. Porém a pressa — esta inimiga da perfeição e da segurança — me fez perder a chave do meu portão no caminho. Retornei do meio da rua e, imprudentemente, decidi procurar a chave no lixo de papéis. Eliana Alves Cruz — uma mulher preta de meia idade, com os cabelos dreadados, usando um vestido sem rasgos, porém simples, e calçando chinelos — foi revirar sacos de lixo na rua.
Aqui faço uma pausa para você visualizar a cena.
Atravessei a pequena rua observando que um carro vinha a uma distância segura e lentamente, mas suficiente para me ver na função de revirar as sacas. Foi rápido. Achei a bendita chave!
Outra pausa para que você visualize a cena, desta vez como nos filmes, em câmera lenta.
Pisei no asfalto e olhei para o carro. O motorista pisa no acelerador em minha direção. Ninguém na rua. Ele não para. Salto (não me perguntem como) para a calçada alta. Coração acelerado na mesma velocidade com que ele seguiu seu caminho em altíssima velocidade.
Cidade Invisível
Estima-se que existam cerca de 800 mil catadores de material reciclável no Brasil. Uma turma que garante seu sustento garantindo que tenhamos esperança de cidades mais sustentáveis, limpas e saudáveis. Todos e todas deveríamos reciclar o que é reciclável. Nos anos 40 e 50 do século passado, a escritora Carolina Maria de Jesus garantia sua precária sobrevivência e a de seus filhos com esta atividade. Sua observação acurada sobre a sociedade brasileira, que a enxergava como parte do lixo que catava, deu ao país um clássico da literatura. Até hoje o livro mais vendido: Quarto de Despejo.
Carolina era moradora da extinta favela do Canindé, em São Paulo. Ela não morava nas ruas, mas perambulava por toda parte na busca insana por material reciclável, por trabalho, por comida, por uma oportunidade que a tirasse daquela condição e a deixasse ser quem realmente era: Uma artista poderosa. Nossa escritora não morava nas ruas, mas a rua também era a sua casa.
Segundo o levantamento mais recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), de novembro deste ano, o Brasil possui 358.553 pessoas em situação de rua. Uma cidade inteira. Pessoas que também reviram os lixos a procura de algum alento. Por vezes são adictos de substâncias, pessoas adoentadas de toda sorte, pessoas que foram parar nos acumulados de sacolas plásticas por motivos diversos e sem conta.
Todas têm apenas uma coisa em comum: São pessoas. No entanto, uma parcela grande da nossa sociedade as enxerga como entulhos que podem ser violados e queimados enquanto dormem, chutados e agredidos, mortos sem nome. Por um instante, naquela rua de um bairro de classe média e aos olhos do motorista daquele carro, fui este ser amorfo, sem rosto, mas com cor. Por um instante, curvada nas sacas abarrotadas de papéis, fui Carolina Maria de Jesus.
Aqui outra pausa para uma virada nesse enredo. Um triste “polt twist”, para usar o jargão dos roteiristas: Se estou viva para contar esta passagem é porque aquele homem não queria verdadeiramente me matar. O motorista queria apenas se divertir com o meu susto, me ver correr dele. Sorrir com seu pequeno, mesquinho e assassino poder. Ele quis dizer “você é lixo e se eu quisesse te matar…”. Sim, ele poderia e é assim que pessoas vulneráveis morrem.

Resumos:
1 – Nós, pessoas negras, não importa em que classe estejamos somos esse corpo vulnerável. Tudo pode acontecer.
2 – Nós não podemos relaxar, descuidar da atenção com o entorno. Nem mesmo em uma manhã solitária, em uma rua pequena, para colocar descartar inocentes papéis recicláveis.
3 – Apesar de tudo isso sempre estivemos e estaremos aqui cada vez em melhores condições, obrigada.
4 – Fogo nos racistas e viva Carolina Maria de Jesus!
Eu não tenho ousadia. Como dizia Carolina, eu tenho é audácia.




