Quando o professor para, é a escola pública que pede socorro


Por Valter Mattos da Costa*

Chamaram os professores de vagabundos.

Não foi um comentário perdido na internet. Não foi um perfil anônimo escondido atrás de uma foto de bandeira. A frase saiu da tribuna de uma Câmara Municipal, no maior estado da federação, dirigida a trabalhadores da educação em mobilização.

O autor da declaração foi o vereador Lucas Pavanato, do PL. Ao chamar professores de “vagabundos”, ultrapassou o limite da divergência política e ingressou deliberadamente no terreno da desumanização simbólica do magistério público.

Não se trata apenas de grosseria parlamentar.

Trata-se da naturalização do desprezo contra aqueles que sustentam diariamente a educação pública brasileira em condições cada vez mais precárias.

Vereador Lucas Pavanato, do PL

Quando representantes políticos passam a insultar professores publicamente, o problema já não é individual. O ataque deixa de ser contra uma categoria específica e passa a atingir a própria ideia de educação pública como direito social.

Talvez o problema comece justamente aí: quando a sociedade passa a enxergar o professor não como trabalhador, mas como obstáculo.

As recentes paralisações e mobilizações dos profissionais da educação da rede estadual paulista, organizadas pela APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), não surgiram do nada. Elas são resultado de um longo processo de desgaste material, psicológico e simbólico da docência pública.

O governador Tarcísio de Freitas e sua equipe apresentam a educação paulista sob a linguagem da eficiência, da gestão e das metas. Fala-se em desempenho, plataformas, indicadores, produtividade e modernização. Mas, dentro das escolas, muitos professores relatam outra realidade: perda de autonomia pedagógica, fechamento de salas, contratos precários, rotatividade crescente e intensificação brutal do trabalho.

A escola pública começa a assumir a lógica de uma empresa em crise permanente.

O professor já não é tratado como sujeito do processo educativo, mas como operador de sistema. Precisa preencher métricas, alimentar plataformas, responder avaliações, cumprir protocolos e manter resultados estatísticos, mesmo quando falta o básico dentro da sala de aula.

A pedagogia vai sendo substituída pela planilha.

Não por acaso, cresce o adoecimento docente.

Ansiedade, exaustão, depressão, distúrbios do sono e sensação constante de fracasso aparecem cada vez mais associados ao trabalho na educação pública. Pesquisas da Sociologia do Trabalho Docente vêm demonstrando que a intensificação das atividades, a ampliação de responsabilidades e a pressão permanente por resultados produzem impactos profundos sobre a saúde física e mental dos profissionais da educação.

Não deixa de ser revelador que, justamente no momento em que a legislação trabalhista brasileira passa a ampliar a atenção aos riscos psicossociais nos ambientes de trabalho, professores continuem denunciando jornadas intensificadas, vigilância digital, cobrança por metas e esgotamento emocional. A escola pública parece ter se transformado em um dos espaços mais visíveis dessa nova forma de desgaste laboral.

Enquanto isso, parte da classe política escolhe humilhar publicamente os professores.

O episódio protagonizado por Lucas Pavanato não é um acidente retórico. É sintoma de uma época. Uma época em que o servidor público virou alvo conveniente para projetos políticos que precisam desmontar direitos enquanto transformam indignação social em espetáculo.

Primeiro desmoraliza-se o professor.

Depois desmoraliza-se a própria ideia de escola pública.

As mobilizações docentes, neste contexto, deixam de ser apenas reivindicações salariais. Tornam-se formas de resistência contra um modelo de educação que pretende reduzir o ensino a treinamento técnico administrado por plataformas digitais, indicadores de desempenho e mecanismos permanentes de controle.

Há algo profundamente revelador quando governos falam tanto em tecnologia, desempenho e inovação, mas tão pouco sobre salário digno, condições humanas de trabalho e estabilidade profissional.

Nenhum aplicativo substitui vínculo pedagógico.

Nenhuma plataforma ensina no lugar do professor.

Nenhum índice educacional produz pensamento crítico sozinho.

A contradição torna-se ainda mais evidente quando se observa que o mesmo Estado que exige produtividade extrema trata seus educadores como custo excessivo. Quer-se uma escola moderna, mas sem investir estruturalmente em quem sustenta a escola todos os dias.

O resultado aparece diante dos olhos: evasão de profissionais, dificuldade crescente para atrair novos docentes, aumento de contratos precários e esgotamento coletivo.

A educação pública paulista talvez esteja revelando algo maior sobre o Brasil contemporâneo.

O trabalho essencial passou a ser tratado como descartável.

A lógica é simples: exige-se cada vez mais, paga-se relativamente menos e, quando o trabalhador reage, chama-se isso de privilégio ou vagabundagem.

Mas professores não interrompem suas atividades porque odeiam ensinar.

Mobilizam-se porque ainda acreditam que a escola pública pode sobreviver.

E talvez esta seja a ironia mais brutal de todas: aqueles acusados de abandonar a educação são justamente os que continuam lutando para impedir o seu colapso.

*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História Social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.





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