Em 2026, 448 dos 513 deputados federais decidiram disputar a renovação própria cadeira. É o maior índice de recandidatura à Câmara desde 1990, acima dos 446 registrados em 2022. Uma disputa presidencial acirrada e regras que garantem vantagem a quem já tem mandato ajudam a explicar por que tantos preferem ficar. No Senado, o movimento se repete: a maioria dos 54 senadores em fim de mandato quer continuar. O levantamento preliminar do DIAP projeta: renovação baixa na Câmara, renovação alta no Senado.
O que cada número mede?
A confusão começa quando três taxas são tratadas como se fossem uma. Recandidatura é a proporção de parlamentares que tentam de novo. Reeleição é a fração dos que tentam e vencem. Renovação é a parcela de cadeiras que passam a nomes novos. As três medem coisas distintas. Recorde na primeira não garante recorde na segunda e diz pouco, sozinho, sobre a terceira.
Os números dão a dimensão. Desde 1990, a Câmara renovou, em média, 49% das cadeiras. Em 2022, a renovação ficou em 46,33% e mais de 65% dos deputados que tentaram a reeleição venceram. Recandidatura recorde somada a essa taxa de sucesso empurra a renovação para baixo.
Na Câmara, o partido decide a vaga
Na Câmara, o eleitor vota no candidato, mas a cadeira é distribuída pelo partido. O sistema é proporcional: cada legenda precisa alcançar o quociente eleitoral, o piso de votos exigido para conquistar assento no estado. Um deputado que busca a reeleição perde a vaga em uma única hipótese: se o partido ou a federação não atingir 80% desse quociente. A segunda exigência, votação individual igual ou superior a 20% do quociente, costuma ser cumprida com facilidade por quem já ocupa o mandato. O desempenho coletivo da legenda pesa mais na sobrevivência do deputado do que o tamanho de sua votação pessoal.

A máquina que o desafiante não tem
Quem já está na Câmara disputa com recursos que o novato não alcança. As emendas parlamentares individuais superam R$ 26,6 bilhões previstos para 2026, dinheiro que o mandatário direciona e o concorrente não tem como oferecer. Some-se a verba de gabinete, de R$ 30 mil a R$ 44.320,46 mensais, a cota de R$ 111.675,59 por mês para contratar de 5 a 25 secretários parlamentares, a prioridade no rateio do Fundo Eleitoral e o acesso constante aos meios de comunicação.
As novas regras estreitam o campo
As mudanças de 2026 reduzem os concorrentes antes da largada. Para manter acesso aos fundos partidário e eleitoral e ao tempo de rádio e televisão, um partido precisa reunir 2,5% do eleitorado nacional em pelo menos nove estados, com no mínimo 1% dos votos válidos em cada um, ou eleger 13 deputados federais em pelo menos nove unidades da federação. O limite de candidatos por legenda também caiu. Com menos nomes em disputa, cai também a chance de surpresa. Numa simulação do DIAP que repete em 2026 o desempenho de 2022, apenas seis partidos, em média, atingiriam o quociente em cada estado.
No Senado, tentar não basta
No Senado, a mesma vontade de permanecer encontra outro filtro. A disputa é majoritária: vence quem recebe mais votos, sem quociente de partido a repartir cadeiras. Aqui a recandidatura alta conviveu, nas últimas eleições, com reeleição baixa. Em 2018, apenas 25% dos senadores se reelegeram. Em 2022, o índice caiu para 18,51%. Por isso o estudo projeta renovação alta na Casa, ainda que muitos senadores concorram.

O desenho escolhe antes do voto do eleitor
O que separa os desfechos não é a decisão dos parlamentares, idêntica nas duas, mas a forma como cada sistema converte votos em cadeiras. Na Câmara, a proporcionalidade protege o coletivo partidário e, com ele, quem já tem o mandato. No Senado, a lógica majoritária expõe cada nome ao voto direto e desfaz essa proteção. A regra escolhe o tipo de resultado antes de a urna abrir.
O efeito prático é uma assimetria. As novas exigências de desempenho, somadas ao orçamento que sustenta o mandato, favorecem quem está dentro e os partidos maiores. Pequenos e médios perdem terreno pela cláusula de barreira. Nomes tradicionais tendem a voltar, numa circulação das elites que troca poucas cadeiras entre atores já conhecidos. Renovação, na Câmara, deixa de ser abertura ao novo e passa a ser o que a estrutura permite que reste.
Tudo isso é projeção. As convenções partidárias ainda podem mexer no quadro e o voto decide no fim. Mas a projeção mostra onde a decisão começa. É o conjunto de regras que define, antes da eleição, quem tem maiores chances de permanecer. O ponto não é a ambição de quem se candidata à reeleição, mas o fato de a regra favorecer quem já está no cargo em um ambiente que clama por renovação na política.





