Por Bernardo Cotrim*
Antes de qualquer consideração sobre o tema, é fundamental estabelecer os termos da discussão: chamar de “censura” a decisão judicial que impediria a Globo de mostrar o púlpito vazio e de permitir que os candidatos dirigissem “perguntas” ao concorrente ausente é tentativa mequetrefe de transformar em “luta democrática” o que até o mundo mineral sabe que é um combo de violentíssimo prejuízo financeiro com perda de poder político.
A empresa não foi impedida de realizar o evento, e a gritaria de comentaristas da GloboNews e o editorial feito às pressas padecem de gritante desonestidade intelectual, como tem sido a tônica da cobertura eleitoral, e afrontam a história das lutas contra a censura e por liberdade de expressão.
Com a faca riscada no chão para separar malabarismo retórico e mau-caratismo de debate sério, é hora de fazer um esforço coletivo para compreender os acontecimentos de uma quinta-feira em que o tempo da política se acelerou e que pode ter definido não só os parâmetros da reta final da campanha, mas também o futuro dos debates eleitorais, pondo em xeque de forma inédita a prerrogativa de uma empresa privada de organizá-lo segundo seus termos e interesses.
A reação da Globo, até o momento, é uma aposta no caos, como bem definiu o colega Paulo Motoryn. Ao editorial apressado e regado a bile, sucedeu-se uma série de comentários aloprados e manchetes desonestas condenando a interferência do Judiciário nas eleições, a suposta atuação do STF para fazer valer os interesses de Lula e uma sofismática defesa da “liberdade de expressão”, culminando com a cereja do bolo: a apresentação de uma cronologia falsa no Jornal Nacional.
Sim, a Globo mentiu: ao contrário do que (des)informou, Flávio Bolsonaro não desistiu do debate após a decisão da ministra Estela Aranha, do TSE, impedindo a transformação de um púlpito vazio com a foto de Lula em personagem central do “debate” e alvo de toda sorte de achincalhes; a desistência do candidato do PL ocorreu após a confirmação da decisão que incluía Renan Santos entre os participantes.
Como é público e notório, Renan tem especial predileção por situar-se programaticamente à direita de Flávio e por apontar o dedo para os laços construídos entre o crime organizado e o filho mais velho de Jair Bolsonaro.
Explicita-se, portanto, 48h antes do pleito decisivo, a aliança entre o principal candidato da extrema direita e a maior empresa privada de comunicação do país, construindo um discurso tão unitário quanto desonesto para explicar o que, de um lado, foi fuga do confronto com um candidato nanico e, do outro, foi tentativa de minimizar o prejuízo financeiro.
A decisão aprofunda o que a cobertura de temas do Judiciário e do Executivo já indicava: o uso em larga escala de métodos que remetem ao período da Operação Lava Jato, reeditando ilações e tentativas de vincular integrantes do governo federal a investigações sem provas consolidadas.
Da mesma forma, episódios como o caso do banco Master ou as discussões em torno da regulamentação das apostas eletrônicas (bets) expõem os limites da (falta de) transparência midiática, pois a joint venture da Globo com a MGM Resorts para explorar o mercado nacional mostra que a empresa tem interesses econômicos que condicionam a forma como as pautas são abordadas, mas isso jamais é informado ao público.
O que a Globo não entendeu até agora é que justamente a cobertura enviesada, a contaminação do debate público e a manipulação da audiência estão na gênese de uma decisão política que pôs em xeque a velha prerrogativa da Rede Globo de organizar o “clímax” da campanha e entregou a maior audiência do horário para Igor 3K e seu podcast.
O monopólio ruiu, minado pela soma de equívocos e barbeiragens cometidos pela própria empresa. A reação arrogante e barulhenta, ao invés de aparentar demonstração de força, exala desespero de quem vê no horizonte a diminuição do próprio poder. A solução, mais uma vez, foi abraçar o primeiro fascista capaz de preservar os lucros. Pode dar certo, mas a aparência é de um abraço de desesperados em busca de um supertrunfo que vire o jogo.
O dado mais importante da disputa é o que ela abre de possibilidade de futuro: a ruptura de um paradigma e o questionamento do monopólio da Rede Globo de organizar o último debate eleitoral, como bem defendeu outra colega de redação, Heloisa Villela. Fortalecer a democracia é blindá-la da manipulação por interesses privados, e um bom passo nessa direção é o fim da tutela global sobre a cobertura eleitoral.
*Bernardo Cotrim é jornalista e gerente de redes do ICL Notícias





