Por Cleber Lourenço
Sem líder solto, sem agenda positiva, sem proposta que sobreviva a cinco minutos fora da bolha, a extrema direita entrou oficialmente na fase mais previsível da política: a da gritaria. Quando não há projeto, sobra barulho. Quando não há futuro, inventa-se escândalo. Quando não há voto para disputar, disputa-se o cotidiano.
Não é coincidência que, em poucos dias, a mesma turma tenha decidido questionar coisas absolutamente banais da vida nacional. O caso mais ruidoso foi o do sorteio da Mega-Sena da Virada, tratado como suspeito, fraudado ou manipulado por políticos e influenciadores da extrema direita. Até um comercial de chinelo entrou no balaio das teorias, como nota de rodapé de uma ofensiva maior contra qualquer fato que não caiba na narrativa do ressentimento.
A lógica é simples, quase didática. Se não há pauta econômica, cria-se suspeita. Se não há proposta social, fabrica-se ressentimento. Se não há liderança viável, transforma-se qualquer ruído em guerra cultural. O roteiro é velho, mas funciona enquanto houver engajamento para monetizar indignação.
No caso da Mega-Sena, o roteiro foi escancarado. Bastou um atraso técnico no sorteio para a patrulha bolsonarista correr para o microfone — não para cobrar transparência com método, mas para semear suspeita com insinuação.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) fez publicações nas redes debochando do adiamento e jogou a narrativa no mesmo trilho de sempre, misturando PT e STF: “Duvido nada no final o Moraes decidir quais serão os números da Mega da virada”, em outra publicação ele ainda afirmou: “Não era só a bolinha girar e cair? Kkkkkkk dps reclamam de chamar de bostil”.
Marcel van Hattem (Novo-RS) seguiu na mesma linha, puxando o episódio para o repertório de ataque ao governo: “Todo mundo já acha que tem rolo no sorteio e eles ainda vêm com essa história de ter problemas. O governo Lula é bandoleiro. Se não é corrupção, é incompetência. A 1ª notícia do ano é a incompetência do governo Lula”.
Repare na mecânica: não é uma cobrança objetiva, com dados e perguntas técnicas. É um pacote pronto de desconfiança — “tem rolo”, “tem sacanagem”, “tem STF”, “tem PT” — jogado na timeline para manter a base em estado permanente de irritação. A lógica é clara: sustentar a ideia de que nada é legítimo, porque admitir normalidade seria admitir irrelevância.
Semanas antes ainda houve a pseudopolêmica envolvendo a marca de sandálias Havaianas apareceu de forma lateral, quase como um apêndice dessa estratégia. Um trocadilho publicitário foi elevado ao status de ataque ideológico, numa controvérsia menor, mas sintomática: quando falta pauta, qualquer detalhe serve como faísca para manter a militância em combustão permanente.
Nada disso mobiliza a sociedade para melhorar a vida de alguém. Não reduz desemprego, não combate inflação, não resolve crise climática, não enfrenta desigualdade. Mas cumpre uma função essencial para quem perdeu o eixo: mantém a base em estado permanente de alerta, medo e raiva.
Há também um detalhe incômodo para esse campo político: com Bolsonaro fora do jogo, não há mais quem concentre narrativa, ordem e disciplina no extremismo. O bolsonarismo sem Bolsonaro vira um condomínio de egos, cada um tentando gritar mais alto que o outro para não desaparecer. A consequência é esse festival de pautas improvisadas, desconectadas, muitas vezes ridículas.
O resultado é uma extrema direita quer fazer a política deixar de disputar o futuro para disputar o algoritmo. Não oferece projeto de país, oferece polêmica reciclável. Não apresenta ideias, apresenta inimigos imaginários. É a política como entretenimento de baixa qualidade, sustentada por teorias conspiratórias, boicotes performáticos e desconfiança generalizada.
Enquanto isso, a sociedade real segue lidando com problemas concretos, observando um movimento que já não consegue sequer fingir que governa ideias. Quando a maior mobilização possível é contra um sorteio de loteria ou um par de sandálias, o recado é claro: a extrema direita brasileira está sem rumo, sem proposta e sem imaginação.
E quando um campo político passa a depender de escândalos fabricados para existir, ele não está em oposição ao governo. Está em oposição à realidade.




