Por Cleber Lourenço
Um senador do partido da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, abriu um novo flanco político em torno do caso da ex-deputada federal Carla Zambelli (PL-SP). Angelo Gelmetti, parlamentar do Fratelli d’Italia, apresentou uma interpelação formal no Senado italiano pedindo que o governo avalie a possibilidade de barrar a extradição da brasileira e, ao mesmo tempo, levante apurações sobre como a polícia italiana chegou ao endereço onde Zambelli foi localizada e presa em Roma, em julho de 2025.
Embora o documento não cite nomes, o deputado italiano Angelo Bonelli, do partido Europa Verde, confirmou ser o alvo indireto da iniciativa. Bonelli foi quem informou às autoridades italianas o endereço em que Zambelli se escondia, permitindo a prisão da ex-parlamentar, considerada foragida da Justiça brasileira à época.
A interpelação de Gelmetti é dirigida aos ministros da Justiça, do Interior e das Relações Exteriores da Itália e sustenta que a prisão de Zambelli ocorreu após uma pessoa fornecer dados precisos sobre seu paradeiro, sem que as fontes dessas informações tenham sido esclarecidas. O senador questiona se houve acesso indevido a bancos de dados reservados, contatos com autoridades brasileiras antes ou depois da prisão e até possíveis acordos informais entre os dois países.
No mesmo documento, Gelmetti faz um ataque direto ao Supremo Tribunal Federal (STF) e, em especial, ao ministro Alexandre de Moraes. O senador afirma que as condenações impostas a Zambelli no Brasil teriam sido marcadas por “graves anomalias processuais”, incluindo o suposto acúmulo de funções por Moraes, que, segundo ele, teria atuado simultaneamente como vítima, relator, julgador e responsável pela execução da pena. A interpelação também levanta a hipótese de que a extradição poderia resultar em violação de direitos humanos.
A iniciativa provocou reação imediata de Bonelli. Em nota enviada ao ICL Notícias, o deputado classificou a ofensiva do senador aliado de Meloni como um episódio de extrema gravidade política e institucional.
“O senador italiano Gelmetti, do partido da primeira-ministra Giorgia Meloni, apresentou uma questão parlamentar instando o Ministro da Justiça a impedir a extradição de Carla Zambelli. Na questão parlamentar, o senador Gelmetti ataca o Supremo Tribunal Federal, especificamente o juiz Alexandre de Moraes, alegando que as duas condenações de Carla Zambelli foram baseadas em fatos inverídicos e em violação de seus direitos por juízes brasileiros”, afirmou Bonelli.
O deputado também confirmou que é a pessoa mencionada de forma indireta na interpelação. “Na questão, Gelmetti pede ao governo que me informe quais foram minhas fontes que me permitiram fornecer o endereço residencial de Zambelli à polícia, que então procedeu à sua prisão. O senador Gelmetti, embora não me mencione nominalmente, se refere a mim, que, como se sabe, forneci o endereço à polícia”, disse.
Para Bonelli, a tentativa de expor ou investigar quem colaborou com as autoridades italianas extrapola qualquer debate legítimo sobre garantias legais. “Esta questão é de gravidade sem precedentes, especialmente por ter sido apresentada pelo partido da primeira-ministra Giorgia Meloni. Denegrir as instituições democráticas e judiciais brasileiras é um ato de gravidade sem precedentes”, declarou.
Segundo o parlamentar, a interpelação apresentada por Gelmetti não busca apenas esclarecimentos administrativos, mas representa uma interferência política direta em decisões judiciais e uma tentativa de deslegitimar o sistema de Justiça brasileiro. Diante disso, Bonelli informou que apresentou uma contrainterpelação ao governo italiano para que o processo de extradição siga seu curso normal, sem pressões ou ingerências políticas.
Enquanto o embate político se intensifica, o caso avança no Judiciário italiano. A Corte de Apelação de Roma marcou para 10 de fevereiro a análise do pedido da defesa de Zambelli para substituir o colegiado de juízes responsável pelo processo. No dia seguinte, 11 de fevereiro, está prevista a audiência que julgará o mérito da extradição solicitada pelo Brasil.
Zambelli foi condenada pelo STF em dois processos com trânsito em julgado. Em um deles, recebeu pena de dez anos de prisão por contratar um hacker para inserir um mandado de prisão falso contra o ministro Alexandre de Moraes no sistema do Judiciário. No outro, foi condenada a cinco anos e três meses de prisão por sacar uma arma e perseguir um homem em São Paulo, na véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2022. Após a confirmação das condenações, a ex-deputada deixou o Brasil e acabou presa na Itália, onde aguarda a decisão sobre sua extradição.




