Uma carta enviada ao Departamento de Estado norte-americano por três dos principais senadores de oposição nos EUA denuncia a ingerência do governo de Donald Trump na eleição brasileira e sua manobra para tentar eleger Flávio Bolsonaro.
“Em vez de ajudar a defender a democracia brasileira, os Estados Unidos estão utilizando pressão diplomática, econômica e política de maneiras que ameaçam enfraquecer as instituições democráticas do país, minar a confiança no processo eleitoral brasileiro e causar mais danos à nossa relação com um aliado estratégico e parceiro comercial dos EUA”, afirmou a carta enviada para Marco Rubio e assinada por Jeanne Shaheen, do Comitê de Relações Exteriores do Senado, e pelos senadores Tim Kaine e Peter Welch.
Segundo eles, a ofensiva da Casa Branca reflete “um padrão mais amplo e profundamente preocupante de interferência da Administração Trump em processos eleitorais recentes na América Latina”. “Esse padrão ameaça não apenas minar a integridade dos processos eleitorais em países específicos, mas também corroer progressivamente a confiança pública nos processos e instituições democráticas em toda a região”, alertaram.
Os senadores ainda fazem uma cobrança: querem saber se o governo Trump irá reconhecer o resultado da eleição.
“A Administração se comprometerá a reconhecer o resultado certificado das eleições democráticas de 2026 no Brasil e a apoiar relações diplomáticas normais com qualquer candidato que seja livre e justamente escolhido pelo povo brasileiro?”, questionaram.
Esta é a segunda carta de democratas ao governo Trump alertando para o risco de uma ingerência em menos de uma semana.
A ação da oposição é considerada como estratégica para observadores brasileiros. A pressão dos parlamentares pode gerar constrangimentos para uma eventual ação desestabilizadora por parte de Trump. A esperança do Brasil é de que essa movimentação ainda sirva como um contraponto dentro do próprio EUA, caso o presidente americano opte por não reconhecer uma vitória de Lula.
Supremacista branco como líder
Na carta, os senadores identificaram Darren Beattie como o artífice das intervenções. No início do ano, ele ganhou o cargo de responsável pela relação entre Brasil e EUA.
“Beattie, um conhecido extremista de extrema-direita e supremacista branco, assumiu o cargo com um histórico de declarações públicas que sinalizavam um compromisso ideológico aberto em minar as instituições democráticas do Brasil e promover os interesses da extrema-direita brasileira”, alertaram os senadores.
No começo do ano, o representante do governo Trump tentou enganar o governo brasileiro e afirmou que iria visitar o país para um evento sobre terras raras. Dias depois, foi descoberto que ele planejava fazer uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Seu visto, assim, foi negado.
Esse não foi seu primeiro caso de saia-justa em sua carreira. No primeiro mandato de Trump, Beattie era responsável por escrever os discursos do presidente. Mas, em 2018, uma reportagem da CNN revelou que ele havia participado de uma conferência liderada por nacionalistas brancos.
A revelação levou o governo a demiti-lo. Naquele momento, Beattie se defendeu, alegando que seu discurso não tinha nada controverso e que havia apenas um tom acadêmico.
O ICL Notícias teve acesso a seu texto de 2018, no qual o polêmico representante de Trump chega a falar também sobre o Brasil.
Em um dos trechos em que ele avalia a “intelectualidade de direita”, Beattie traça paralelos com o marxismo e a situação no Brasil.
“Enquanto os marxistas culturais podem ter se ressentido da burguesia por esta dificultar a progressão para uma utopia marxista, e da classe trabalhadora por não ter se mobilizado universalmente contra a burguesia como era esperado e previsto pelos marxistas clássicos, os marxistas corporativos se ressentem da burguesia por impedir a progressão natural em direção a um sistema como o do Brasil, no qual uma elite rica, isolada e cada vez menor domina hordas de hilotas facilmente controláveis. O Brasil é a nova utopia marxista para os marxistas corporativos, se me permitem o termo, embora ‘utopia’ possa ser um termo inadequado dada a clara plausibilidade dessa eventualidade”.
Fora do governo, ele criou sua própria empresa de comunicação, a Revolver News. Ela ficaria conhecida por difundir mentiras e teorias conspiratórias. Uma das teses divulgadas pelo site era de que os ataques contra o Capitólio em 6 de janeiro de 2021 foram, de fato, realizados por agentes federais.
O enviado não disfarçava sua satisfação com a invasão. “O homem esquecido fala”, escreveu Beattie nas redes sociais, segundo levantamento da CNN. “O FBI deveria se ajoelhar em sinal de respeito aos manifestantes do MAGA”. “Esta revolução colorida é vermelha, branca e azul”, completou.





