Aos brancos, como eu.
Analisando certa feita vários livros didáticos de História para emitir um parecer, constatei que a Revolução Haitiana dos negros escravizados continuava sendo ensinada (quando era) de forma periférica nas nossas escolas.
A rigor, uma pergunta central deve ser feita: por que é que os entusiastas da Revolução Francesa e da ideia dos direitos universais do homem se apavoraram com a Revolução do Haiti? Como justificar a ideia de que o Homem Universal dos iluministas franceses não incluiria os escravizados/colonizados haitianos que se insurgiram contra a tirania?
A resposta dos europeus foi jogar a discussão para o campo da dicotomia entre civilização e barbárie, operando o conceito de raça para estabelecer os que tinham condições de ter seus direitos reconhecidos (civilizados/brancos) e os que não deveriam ter esses direitos (selvagens/não brancos).
Toda a construção do “ser branco” em um estado colonial passa a se fundamentar na naturalização de uma superioridade que seria inata à condição biológica (brancos) e cultural (ocidente/cristianismo/ciência).
A patologia colonial da branquitude é o complexo de superioridade. A patologia do branco colonizador é a de que somos, ao mesmo tempo, colonizados. Já não somos europeus, nunca poderemos ser, e não queremos ser americanos do sul. Vivemos na rasura.
Nos sentimos superiores (a negros, indígenas) e inferiores (aos imaginados “europeus legítimos”) ao mesmo tempo. Descontamos o fato de não termos a Mona Lisa desprezando a arte marajoara. Não seremos o que gostaríamos de ser e detestamos o que somos.
Como lidar e desconstruir o complexo de superioridade em relação aos negros e indígenas – um pilar do racismo – e o complexo de inferioridade em relação aos povos do Norte? No fim das contas, continuamos nessa via desencantada, babando por Notre Dame e execrando o Vodun do Haiti, como se as duas coisas não pudessem se encontrar nas encruzilhadas americanas.
Eis a doença dos brancos do sul, como eu, miseravelmente cindidos entre aquilo que queríamos ser e nunca seremos e aquilo que nos apavora: o galo cantando no ombro dos rebeldes pretos caribenhos.
Resta o quê? Qual é o último ato dessa pantomima: aplaudir réplicas da Estátua da Liberdade ou emular as visões de mundo eurocentradas como caminhos únicos da liberdade e do pensar sobre o mundo?
Desceremos mais ainda nesse abismo de desencantos e neuroses?
Ficam as indagações.




