Tecnologia para o filho dos outros


Uma nova geração de aparelhos transformou o berço em um painel de controle. Empresas como Nanit, Owlet, Huckleberry e CuboAi registram desde o sono, respiração e batimentos cardíacos, até detalhes sobre mamadas e trocas de fralda. Tudo para gerar métricas do bebê como “eficiência” do sono e tempo até adormecer. Mal saiu da barriga e o recém-nascido já está sob vigilância.

A Nanit diz ter um milhão de usuários diários, com uma receita anual acima de US$ 100 milhões e quer ir além do sono. O objetivo é usar IA para acompanhar fala, linguagem e habilidades motoras até a pré-adolescência, de olho na faixa de zero a dez anos, um mercado ainda pouco explorado quando o assunto é monitorar de dados biométricos.

A pediatra Rebekah Diamond, ouvida numa reportagem do New York Times, alerta que, ao substituir observação e intuição por notificações, esse rastreamento excessivo automatiza a criação e pode reduzir a confiança das mães e dos pais nas próprias decisões. E na busca por diminuir incertezas, podem entregar dados sensíveis dessas crianças para empresas privadas.

A Owlet já foi advertida pela FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA) por anunciar seu produto como se fosse um dispositivo médico e a CEO da Nanit admite não saber ainda tudo o que essas informações vão permitir no futuro.

Os executivos das empresas que constroem essas tecnologias criam seus filhos longe delas. O mega investidor Peter Thiel libera uma hora e meia de tela por semana para os filhos pequenos, quantidade que muita gente consome antes do almoço. Bill Gates, cofundador da Microsoft, só deu celular aos filhos aos 14 anos e o filho de 11 anos de Sundar Pichai, CEO do Google, ainda não tem telefone. Próximo as sedes dessas empresas, a Waldorf School of the Peninsula proíbe celular, fala em “aprendizado humano” é muito disputada por profissionais do setor de tech.

A cautela agora alcança a IA. Cofundador da OpenAi, Sam Altman, que virou pai recentemente, diz que prefere apresentar a tecnologia ao filho o mais tarde possível e passou a valorizar o tédio como parte da infância. Steve Chen, cofundador do YouTube, tenta ensinar os filhos a fazer as coisas do jeito lento e difícil. No episódio desta semana do RESUMIDO falei sobre um estudo com quase 27 mil alunos chineses que ajuda a explicar esse receio.

As mesmas pessoas que melhor conhecem essas ferramentas escolhem tédio, leitura e convívio para os filhos, enquanto vendem monitoramento permanente e assistentes de IA para os filhos dos outros. Esse contrassenso é um recado por si só.





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