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quinta-feira, fevereiro 12, 2026
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Trump corta ajuda e milhares de vítimas de violência sexual são abandonadas em todo mundo


As meninas congolesas Sephora, Happy e La Reine levam em seus corpos as marcas da violência. Os motivos para a agressão não foram suas respectivas religiões, opiniões políticas ou etnia. Elas foram alvos pelo simples fato de terem nascido mulher.

Na República Democrática do Congo, o abuso sexual contra meninas é endêmico e, em cada relato, está a história de sonhos destruídos.

“Ainda me lembro daquele dia: eu caminhava pela nossa aldeia quando quatro homens armados me agarraram à força, me levaram para a floresta e começaram a me estuprar”, contou Happy, apelido que a congolesa que hoje tem 18 anos escolheu para si mesma.

“Eu não sabia como me defender e eles me disseram que se eu gritasse, eles me matariam. Eu só conseguia suportar a dor, com lágrimas nos olhos”, disse.

Quando voltou para casa, Happy não contou a ninguém o que havia acontecido. “Eles me disseram para não dizer nada, senão voltariam para me matar”, lembrou. “Alguns dias depois, comecei a me sentir muito mal. Contei para minha mãe que não estava me sentindo bem e ela me levou ao posto de saúde. Durante a consulta, a enfermeira me fez muitas perguntas e eu contei o que havia acontecido. Eu estava com medo de falar com minha mãe sobre isso.”

Seguindo o conselho da enfermeira, mãe e filha viajaram para Bukavu no dia seguinte para consultar especialistas no Hospital Panzi. “Quando cheguei a Panzi, encontrei as Mamans Chéries (nome dado às sobreviventes) e elas me disseram que eu receberia um ótimo atendimento ali”, contou.

Sephora, de 18 anos e mãe de duas crianças, conta que ela fugiu quando confrontos armados eclodiram em 2023. “Estávamos na escola quando a luta começou e todos correram em direções diferentes. Quando cheguei em casa, percebi que minha família já tinha ido embora. Não tive outra opção a não ser fugir da aldeia também. Enquanto fugíamos com outras meninas da escola, cruzamos com bandidos na floresta e eles nos estupraram”, disse.

“Eles nos deixaram lá e não tivemos outra escolha a não ser continuar caminhando. Mal conseguíamos nos mover por causa da dor. Quando chegamos a uma aldeia mais segura do que a nossa, fomos ao posto de saúde e nos disseram que precisávamos de cuidados. Foi assim que chegamos aqui em Bunia para continuar o tratamento.”

Sephora soube que seu pai havia sido baleado enquanto fugia dos confrontos e, até hoje, não teve notícias de sua mãe. Seus agressores nunca foram identificados. “Havia cinco pessoas envolvidas, mas eu não as conhecia. Descrevi seus rostos e as roupas que vestiam, mas não pareceu suficiente para identificá-las”, disse.

La Reine é outra que relata o horror de ser uma mulher num conflito armado. Ela engravidou após ser estuprada aos 16 anos.

“Naquela noite, eu voltava do coral por volta das 17h quando um homem me puxou para a floresta e me estuprou. Havia sangue por toda parte e eu mal conseguia andar. Quando cheguei em casa, fui espancada pelos meus pais, que disseram que eu havia desonrado a família”, disse.

Hoje, sua gravidez está quase no final. “Os médicos já me disseram que é um menino. Gostaria que ele se tornasse ministro, ou até mesmo presidente da República. Depois disso, quero continuar meus estudos, porque eu estava na oitava série quando tudo isso aconteceu comigo”, contou.

Corte de recursos por parte das potências

Essas três garotas têm outra característica em comum: todas elas foram resgatadas e socorridas por centros médicos apoiados pela Unicef. O problema é que, diante do corte profundo de recursos para a ajuda internacional, centenas de milhares dessas meninas estão hoje abandonadas.

Um informe publicado nesta terça-feira pela agência da ONU para a Infância revela que, em meados de 2025, apenas 23% das intervenções contra a violência de gênero foram financiadas – uma queda em relação aos 48% em 2022 – colocando centenas de milhares de crianças congolesas, incluindo 300.000 em regiões do leste afetadas por conflitos, em risco de perder o acesso a apoio vital.

A Unicef é apenas uma das entidades que sofre com o desmonte da ajuda internacional. Na ONU, a organização planeja demitir em 2026 quase um quinto de seus funcionários, diante da falta de ajuda dos principais doadores.

A decisão do governo de Donald Trump de encerrar repasses para programas sociais pelo mundo ainda forçou centenas de iniciativas a fechar suas portas, tanto no campo da saúde, planejamento familiar, envio de alimentos e remédios.

“Este é um momento de brutalidade, impunidade e indiferença”, disse o chefe humanitário da ONU, Tom Fletcher. Para ele, 2025 foi marcado pela “ferocidade e intensidade dos assassinatos, o completo desrespeito ao direito internacional e níveis horríveis de violência sexual”.

Fletcher está convencido de que o sistema internacional criado para proteger civis está “em retrocesso”, corroído por polarização política e orçamentos de ajuda cada vez menores. “Nossas antenas de sobrevivência foram entorpecidas pela apatia”, alertou.

Em 2025, a ONU havia feito um apelo por US$ 45 bilhões para atender às principais crises humanitárias do mundo, mas recebeu apenas US$ 12 bilhões. “Quando os políticos se gabam de cortar a ajuda”, disse Fletcher, “somos forçados a escolher quem vive e quem morre.”

Sob o governo de Donald Trump, Washington reduziu suas doações humanitárias de US$ 11 bilhões em 2024 para US$ 2,7 bilhões em 2025, segundo dados da ONU. O resultado tem sido milhões de pessoas sem acesso a remédios, abrigo ou ajuda.

Mesmo as maiores e mais notórias crises continuaram criticamente subfinanciadas em 2025. A Ucrânia, por exemplo, recebeu apenas 48,7% dos fundos necessários, o Território Palestino Ocupado 40%, e o financiamento para a resposta no Sudão está em 35,4%, uma queda acentuada em relação aos 69,3% em 2024.

Enquanto isso, outras crises “invisíveis” são ainda mais negligenciadas. O apelo da ONU para a República Democrática do Congo recebeu apenas 22% do financiamento necessário, enquanto os apelos do Iêmen e da Somália estão ambos em 24%.

Como resultado da queda vertiginosa do financiamento, as organizações humanitárias estão sendo forçadas a reduzir drasticamente a assistência e a proteção às pessoas em crise. Serviços vitais – como alimentação e saúde de emergência, água, saneamento e programas de proteção – estão sendo reduzidos ou suspensos, deixando milhões de pessoas em maior risco de doenças evitáveis, desnutrição e deslocamento.

As consequências dos cortes de financiamento são potencialmente fatais para milhões de pessoas que lutam para sobreviver. No Iêmen, uma das emergências nutricionais mais graves do mundo, o Global Nutrition Cluster relatou em setembro que os cortes de financiamento forçaram o fechamento de 377 centros de atendimento ambulatorial e 2.376 centros de distribuição de alimentos suplementares, deixando milhões de mães e crianças sem apoio vital.

Violência sexual endêmica, sistemática e em expansão

O informe ainda aponta que a violência sexual contra crianças é endêmica, sistêmica e está piorando em toda a República Democrática do Congo. Embora o conflito continue sendo um fator importante, o relatório mostra casos documentados em comunidades em todas as províncias e aumentando acentuadamente desde 2022.

Mais de 35.000 casos de violência sexual contra crianças foram registrados em todo o país nos primeiros nove meses de 2025, apontando para uma crise que continua a se agravar. Em 2024, quase 45.000 casos contra crianças foram registrados, representando quase 40% de todos os casos de violência sexual relatados – três vezes mais do que em 2022.

A Unicef alerta que esse pode ser apenas uma parte da história e que o verdadeiro número de vítimas provavelmente é muito maior devido à subnotificação, já que o medo, o estigma, a insegurança e o acesso limitado aos serviços impedem que muitas meninas denunciem ou busquem ajuda.

“Assistentes sociais descrevem mães caminhando por horas para chegar às clínicas com filhas que não conseguem mais andar após serem agredidas. As famílias dizem que o medo do estigma e de represálias muitas vezes as impede de denunciar o abuso”, disse Catherine Russell, diretora executiva do UNICEF.

“Histórias como essas se repetem em todas as províncias, expondo uma crise enraizada, impulsionada pela insegurança, desigualdade e sistemas de apoio frágeis”, lamentou.

A maioria dos casos está concentrada em Kivu do Norte, Kivu do Sul e Ituri, onde o conflito, o deslocamento e os sistemas de proteção enfraquecidos geram riscos extremos. Mas números significativos também são documentados em Kinshasa e Kasai, onde a pobreza, a insegurança alimentar e o abandono escolar aumentam a vulnerabilidade das meninas à exploração e ao casamento precoce.

As adolescentes continuam sendo as mais afetadas em todo o país, representando a maior e crescente parcela de sobreviventes. Os meninos também são submetidos à violência sexual, mas permanecem significativamente sub-representados nos casos relatados. C

rianças com deficiência enfrentam riscos maiores, com barreiras físicas, sociais e de comunicação que aumentam a vulnerabilidade e restringem o acesso a cuidados e justiça.

As sobreviventes frequentemente enfrentam ferimentos físicos graves, gravidezes indesejadas, riscos maiores de HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, bem como profundos danos emocionais, incluindo medo, ansiedade, depressão e rejeição social, incluindo a exclusão de famílias e comunidades. No entanto, o acesso a apoio vital continua limitado.

Entre 2022 e 2024, o número de crianças sobreviventes assistidas pelo UNICEF aumentou 143%, alcançando mais de 24.200 crianças nas províncias mais afetadas em 2024.

No entanto, a insegurança e os cortes no financiamento global forçaram muitos espaços seguros, clínicas móveis e programas de proteção comunitária apoiados pelo UNICEF a reduzir ou encerrar suas atividades.

 





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