Trump propõe coalizão internacional para asfixiar movimentos de esquerda


O governo de Donald Trump convidou cerca de 60 países do mundo para criar uma aliança contra movimentos antifascistas e de esquerda considerados como “violentos”. Nos EUA, a Casa Branca passou a designar o grupo Antifa como parte do combate ao terrorismo e chegou a aplicar restrições de vistos contra ativistas estrangeiros que tenham relações com esse movimento.

Agora, sob a bandeira do combate ao terrorismo e a violência política, Trump quer a criação de uma coalizão internacional e não descarta também designar o movimento Antifa como uma organização terrorista internacional.

A cúpula deve ocorrer na próxima semana, em Washington. Consultados pelo ICL Notícias, membros do Palácio do Planalto e da Polícia Federal afirmaram que desconheciam a iniciativa. A reportagem aguarda um posicionamento por parte do Itamaraty.

Oficialmente, Washington fala em combater o “ressurgimento do terrorismo político” e os países convidados incluem o Hemisfério Ocidental, a Europa e a Ásia. Governos como o da Argentina e Índia foram convidados.

A cúpula faz parte ainda da estratégia anunciada por Trump para o combate ao terrorismo e que, em maio, atualizou a doutrina dos EUA.

Um dos pontos principais do foco das agências de Washington são os “grupos políticos seculares e violentos cuja ideologia é antiamericana, radicalmente transgênero ou anarquista, como o Antifa”.

Ainda no ano passado, num evento, Trump colocou a esquerda como um risco à segurança nacional. “Deve ficar claro para todos os americanos que temos uma ameaça terrorista de esquerda muito séria em nosso país: radicais associados ao grupo terrorista doméstico Antifa”, disse.

“Outros extremistas de extrema-esquerda vêm realizando uma campanha de violência contra agentes do ICE e outras autoridades encarregadas de aplicar a lei federal”, continuou o presidente.

Na semana passada, ao celebrar os 250 anos dos EUA, Trump colocou o combate ao comunismo como um dos centros de sua ação.

ONU faz alerta

A movimentação do governo americano contra esses grupos vem chamando a atenção internacional e, numa carta enviada por relatores da ONU, a entidade denuncia a Casa Branca por tentar silenciar movimentos progressistas, adotando leis que transformam entidades da sociedade civil em potenciais grupos terroristas.

A carta é assinada por Ben Saul, relator da ONU sobre a promoção e proteção dos direitos humanos no combate ao terrorismo, Morris Tidball-Binz, relator sobre execuções extrajudiciais, Gina Romero, relatora da ONU sobre o direito à liberdade de associação, Mary Lawlor, relatora sobre a situação dos Defensores dos Direitos Humanos; e Ana Brian Nougrères, relatora Especial sobre o direito à privacidade.

O foco da denúncia apresentada pela ONU se refere ao Memorando de Segurança Nacional, de 25 de setembro de 2025. Seu nome: o Combate ao Terrorismo Doméstico e à Violência Política Organizada.

Na carta, os especialistas se dizem preocupados com a possibilidade de que o foco vago em “terrorismo doméstico” e “violência política” da diretriz, aliado à perseguição de movimentos antifascistas, possa ser “usada indevidamente para perseguir ideologias e pontos de vista não violentos, particularmente os de esquerda, com os quais o governo Trump discorda”.

Isso seria uma violação da legítima expressão, associação e reunião pacífica.

“Observamos que muitos dos exemplos e ideologias mencionados no Memorando como supostas evidências de terrorismo doméstico ou violência política não podem ser plausivelmente caracterizados como tal, incluindo atividades legítimas de protesto contra ações excessivas de aplicação da lei e imigração, e ideologias alegadamente ‘anti-americanas’, ‘anticapitalistas’ ou ‘anticristãs’”, alertaram os relatores.

Eles também soam o alarme contra uma ofensiva que teria como objetivo a “estigmatização, vigilância e criminalização como ‘terroristas’ de cunho político” dessas entidades progressistas.

“A estigmatização injusta de críticos, dissidentes ou defensores dos direitos humanos, bem como de seus apoiadores e financiadores, tem um efeito inibidor destrutivo, induzindo à autocensura, sobre o exercício legítimo das liberdades de expressão, associação e reunião pacífica, e sobre o direito de participar em assuntos públicos, e sobre o espaço cívico e a democracia”, alertaram.

O que dizem as novas leis da Casa Branca

O Memorando de Trump cria uma estratégia nacional para investigar e desmantelar redes e organizações que fomentam violência política, intimidação violenta, conspirações contra direitos e outras perturbações à democracia, antes que resultem em “terrorismo doméstico” e “violência política organizada”.

Mas a diretriz se concentra particularmente em movimentos “antifascistas”, que, segundo ela, ameaçam os “princípios, a democracia e os direitos americanos”. O documento cita o exemplo da Antifa, entidade designada como organização terrorista doméstica por uma Ordem Executiva Presidencial dos EUA de 22 de setembro de 2025.

Segundo a Casa Branca, os grupos que incentivam essa “conduta violenta incluem antiamericanismo, anticapitalismo e anticristianismo; apoio à derrubada do governo dos Estados Unidos; extremismo em relação à migração, raça e gênero; e hostilidade contra aqueles que defendem visões americanas tradicionais sobre família, religião e moralidade”.

Num outro trecho, a Casa Branca estabelece uma Força-Tarefa Nacional Conjunta de Combate ao Terrorismo, com escritórios locais para coordenar e supervisionar a estratégia nacional.

A Força-Tarefa tem a incumbência de investigar potenciais crimes relacionados a atos de recrutamento ou radicalização de pessoas com o propósito de “violência política, terrorismo ou conspiração contra direitos”.

Por isso, a entidade recebeu o mandato para investigar financiadores dessas entidades, organizações não governamentais “com laços estreitos com governos estrangeiros, agentes, cidadãos, fundações ou redes de influência” que poderiam estar apoiando o que a Casa Branca passou a denominar como “terrorismo doméstico”.

O Memorando ainda dá o direito ao Secretário do Tesouro de identificar e desmantelar as redes que financiam essas entidades.

Como resultado da ofensiva, a Procuradoria-Geral dos EUA instruiu autoridades policiais federais sobre as prioridades de investigação, concentrando-se no risco de terrorismo doméstico e violência política, particularmente por parte de movimentos antifascistas e da Antifa e seus financiadores.

O que chama a atenção dos relatores é que os documentos oficiais da Casa Branca fornecem uma lista detalhada de crimes federais que os investigadores devem priorizar, a maioria dos quais não envolve violência contra a pessoa.

“Muitos desses crimes estão associados ao policiamento de protestos, incluindo obstrução, resistência à prisão, crimes contra o patrimônio e piquetes ou desfiles com a intenção de obstruir a administração da justiça e atividades online, bem como crimes financeiros (por exemplo, fraude fiscal, postal ou eletrônica), conspiração e cumplicidade para capturar atividades de grupos”, alertou a carta enviada para o governo Trump.

A ordem também instrui o FBI a “compilar uma lista de grupos ou entidades envolvidas em atos que possam constituir terrorismo doméstico” e a fornecê-la ao Procurador-Geral.

Para completar, os relatores da ONU se dizem preocupados com o uso do termo “terrorismo” para designar vários tipos de protestos domésticos nos EUA, o que poderia legitimar o uso excessivo da força e outros abusos, como prisões e detenções arbitrárias, por parte das autoridades policiais.





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