Trump quer interferir no Mercosul por meio da Venezuela


Por Heloísa Villela

O governo de Donald Trump quer interferir nas decisões do Mercosul através da Venezuela. A diplomacia brasileira sabe que partiu de Washington a manobra colocada em ação pelo presidente do Paraguai, Santiago Peña Palacios. Ele procurou o presidente Lula para propor que se inicie um processo de reintegração da Venezuela ao bloco, e recebeu sinal verde do colega brasileiro.

Os diplomatas do Brasil viram os primeiros sinais dessa movimentação meses atrás quando, durante uma entrevista coletiva em Assunção, um dos ministros do governo paraguaio afirmou que a Venezuela voltaria ao Mercosul ainda neste primeiro semestre. Em março, durante a reunião da COP15 sobre a Convenção para a Conservação das Espécies Migratórias e Animais Silvestres, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, o presidente do Paraguai consultou Lula sobre a possível volta da Venezuela ao bloco.

O governo brasileiro vê com bons olhos a iniciativa porque acredita que é preciso unificar a região. O Planalto avalia que existem ao menos quatro temas que podem unir governos da América do Sul sem esbarrar em obstáculos ideológicos. É o caso das emergências de saúde, como foi a pandemia de Covid 19, das necessidades energéticas, dos investimentos em infraestrutura e o do combate ao crime organizado. Mas nos bastidores do Itamaraty, também existe a certeza de que Trump quer usar a Venezuela para fortalecer o grupo de governos de direita no bloco, como Argentina e Paraguai, em votações importantes.

Porém, os diplomatas brasileiros destacam que o convite para que a presidenta da Venezuela participe da cúpula de chefes de Estado do Mercosul, marcada para o dia 30 de junho, em Assunção, pode marcar o começo de um processo de reinclusão da Venezuela. Mas está longe de dar ao país poder de voto no bloco. A Venezuela foi afastada do grupo duas vezes. Uma em 2016, com uma justificativa técnica. O país tinha quatro anos para implementar as obrigações do protocolo de adesão ao Mercosul e não cumpriu o prazo. No ano seguinte, foi decidido o afastamento porque o bloco considerou que as eleições da Venezuela significaram uma ruptura da ordem democrática.

Depois dos problemas com a Venezuela, o Mercosul adotou novas regras para a entrada de parceiros no bloco. Antes, ao ingressar, o país já tinha direito de voto enquanto fazia as mudanças necessárias para adotar todas as regras e protocolos do grupo. Agora, é preciso fazer as mudanças primeiro para virar membrou pleno, com direito a voto. Com 35 anos de existência, o Mercosul tem hoje cerca de 3.000 normas que um novo membro tem que adotar antes de se tornar parceiro pleno.

No caso da Venezuela, a expectativa é de que essa exigência retarde a completa adesão do país ao bloco. Um processo que pode levar até quatro anos, mas pode ser acelerado, se o país se empenhar na adoção das normas. Ainda assim, é muito pouco provável que a volta da Venezuela se complete ainda no mandato de Donald Trump. Seria um recado subliminar negativo: o de que o sequestro de um chefe de Estado (Nicolás Maduro) e a ingerência direta de Washington em assuntos internos dos países da região pavimentou o caminho para normalizar as relações de um país com todo o bloco.





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