Uma encíclica é um dos documentos mais importantes que um papa pode publicar. Historicamente, funciona como tentativa de estabelecer um enquadramento moral para grandes transformações sociais. Essa semana o papa Leão XIV publicou a Magnifica Humanitas, a primeira encíclica sobre inteligência artificial.
A escolha do nome já antecipava o caminho. Leão XIV se conecta diretamente a Leão XIII, autor da encíclica Rerum Novarum, publicada em 1891 quando a Igreja tentou criar uma linguagem moral diante da reorganização do trabalho e do poder durante a Revolução Industrial.
O documento papal traz uma preocupação central. Critica o que chama de “ideologia insidiosa de que cada pessoa precisa justificar o próprio valor” e alerta para uma possível “regressão antropológica”.
O temor não é simplesmente o desemprego em massa e sim uma reconfiguração da posição humana dentro da ordem social, num arranjo de poder que decide quem é útil, produtivo ou descartável numa sociedade automatizada. Para o papa, o trabalho não é só atividade econômica, é fonte de dignidade.
Existe também uma segunda camada nessa história, talvez mais reveladora do que o próprio documento. O Vaticano escolheu um interlocutor de dentro da indústria de IA. Christopher Olah, cofundador da Anthropic, dividiu o palco com o papa durante o anúncio.
O Vaticano poderia ter chamado alguém da OpenAI, do Google ou da Meta. Escolheu justamente o laboratório de IA que tenta construir uma reputação de cautela (algo bastante analisado no podcast RESUMIDO toda semana – https://resumido.cc/).
Ao fazer isso, tomou partido num debate que vai além da tecnologia. É como se criticasse quem quer implementar IA com velocidade, independente das consequências, e exaltasse aqueles que querem entender o que está sendo colocado no mundo antes de acelerar.
A discussão durante a Revolução Industrial tem bastante semelhança com o que se discute hoje. Temas como exploração e precarização do trabalho e concentração de poder econômico ressurgem, agora com mais questões relacionadas a automação cognitiva.
A Rerum Novarum não impediu a exploração industrial, mas criou um vocabulário moral que moldou décadas de política do trabalho. É cedo pra dizer se a Magnifica Humanitas terá efeito parecido. Por ora, o que o Vaticano fez foi entrar no jogo. E escolher com quem sentar à mesa.



