Por Fabyo Cruz
Um episódio de tensão marcou a mobilização de povos indígenas do Baixo Tapajós, na noite de quinta-feira (05), em Santarém, no oeste do Pará. Lideranças denunciaram que o vereador Malaquias José Mottin (PL) avançou com um veículo contra uma barreira formada por manifestantes durante uma vigília, colocando em risco famílias, crianças e idosos que participavam do protesto. A mobilização ocorre no contexto das manifestações contra a dragagem do rio Tapajós e pela revogação do Decreto nº 12.600/2025.
Em nota divulgada nesta sexta-feira (06), o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), que representa 14 povos da região, repudiou o episódio e classificou a situação como grave.
“Na noite desta quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026, durante a vigília do movimento indígena na barreira instalada na BR-163 (Santarém-Cuiabá) – que dá acesso ao terminal de cargas da transnacional Cargill, em Santarém (PA) – um veículo de alto padrão conduzido pelo vereador Malaquias Mottin (PL) avançou contra a barreira, empurrando pneus e estruturas de bloqueio. Nos vídeos que circulam nas redes sociais, é possível ver o político de extrema direita jogando o carro na direção de manifestantes, em uma área onde havia crianças, idosos e famílias”, afirmou a entidade.
O líder indígena Eládio Tupayú relatou que o grupo realizava uma manifestação pacífica e buscava diálogo com autoridades federais quando o parlamentar tentou atravessar o bloqueio. “Ele veio aqui tentar passar nossa barreira, tentou atropelar nossos companheiros. Estamos aqui numa manifestação contra a Cargill, contra a dragagem que tem aqui no nosso rio Tapajós. A gente não vai descansar”, declarou.
Também nesta sexta-feira, o vereador Malaquias Mottin divulgou nota pública com outra versão dos fatos. Segundo o parlamentar, ele e a esposa, que é cadeirante, trafegavam em veículo particular pela Avenida Tapajós quando se depararam com a via interditada por manifestantes. O vereador afirmou que foi reconhecido e cercado por pessoas que portavam pedaços de madeira.
De acordo com a nota, o parlamentar teria sido agredido e sofreu lesões físicas, inclusive na cabeça. “Ao tentar deixar o local por meio de manobra de retorno, o condutor foi impedido, com manifestantes posicionando-se à frente do veículo. Assim, já agredido e diante do temor iminente pela própria vida, munido do direito de se proteger, o motorista forçou a saída e conseguiu deixar o local”, declarou.
A família afirmou ainda que solicitou providências das autoridades e pediu a apuração do caso pela Polícia Civil. O vereador também ressaltou, na nota, que o direito à manifestação é garantido pela Constituição, mas deve ocorrer sem violência e com respeito à integridade das pessoas.

Manifestação dos indígenas
O episódio ocorreu em meio à ocupação do porto da multinacional Cargill, iniciada em 22 de janeiro por indígenas de ao menos 14 povos do Baixo Tapajós. O movimento denuncia impactos ambientais, sociais e territoriais da dragagem prevista para o trecho entre Santarém e Itaituba, com cerca de 280 quilômetros de extensão. Segundo as lideranças, a obra atende prioritariamente aos interesses do agronegócio e não contempla as necessidades das comunidades tradicionais que vivem ao longo do rio.
O projeto prevê investimento estimado em R$ 74,8 milhões, com recursos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e tem como objetivo garantir navegabilidade durante todo o ano, especialmente no período de estiagem, facilitando o escoamento de grãos pelo chamado Arco Norte. Lideranças indígenas questionam a ausência de consulta prévia, livre e informada às comunidades afetadas, conforme previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
O Ministério Público Federal (MPF) também aponta que o empreendimento não possui licenciamento ambiental completo, como o Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima). Apesar disso, a Justiça Federal negou, em janeiro, pedido de suspensão da licitação. A dragagem está atualmente amparada por autorização ambiental emergencial emitida pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas), válida até 12 de fevereiro de 2026.
A escolha do porto da Cargill como local da ocupação tem forte significado para os manifestantes. Comunidades indígenas afirmam que o terminal foi construído sobre a antiga Praia de Vera Paz, onde existia um cemitério ancestral do povo Tapajó, e apontam a multinacional como uma das principais beneficiárias do aprofundamento do rio.
Polêmicas envolvem vereador do PL
O vereador Malaquias Mottin, natural do Rio Grande do Sul e residente em Santarém desde 2004, é empresário e exerce mandato pelo Partido Liberal (PL), legenda do ex-presidente Jair Bolsonaro. Sua atuação política é marcada por posicionamentos alinhados a pautas do agronegócio e por declarações que já provocaram reação de lideranças indígenas.
Em setembro do ano passado, o parlamentar questionou a autodeclaração de identidades indígenas durante sessão da Câmara Municipal e falou em “corrupção na questão de etnias” e em um “grande volume de autodeclarados étnicos”, declarações que foram classificadas como preconceituosas pelo Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns. O vereador também foi alvo de críticas de entidades ambientais e movimentos sociais após defender a derrubada de mangueiras centenárias em Santarém e por declarações políticas feitas em plenário em defesa do presidente dos Estados Unidos Donald Trump.




