Zezinho Lima afirma que essas manifestações “desvirtuam a moral e a formação das crianças e adolescentes” (Composição: Elio Almeida/CENARIUM)
24 de março de 2025
Fabyo Cruz – Da Cenarium
BELÉM (PA) – O vereador bolsonarista Zezinho Lima (PL) apresentou projeto de lei na Câmara Municipal de Belém (CMB) para proibir a participação de crianças e adolescentes na Parada do Orgulho LGBTQIA+ e em outros eventos culturais considerados “incompatíveis com a presença de menores de idade”. A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil no Pará (OAB-PA) classificou a proposta como inconstitucional, apontando violações aos direitos da população LGBTQIAPN+, e das crianças e adolescentes.
O PL Nº 3, de 3 de março de 2025, argumenta que eventos do movimento LGBTQIAPN+ “estimulam excessivamente a sexualidade” e criam um ambiente propício a atos considerados imorais, além de exporem menores ao consumo de bebidas alcoólicas e outras substâncias ilícitas. Na justificativa, Zezinho Lima afirma que essas manifestações “desvirtuam a moral e a formação das crianças e adolescentes”, defendendo a necessidade de regulamentação para garantir o “desenvolvimento social legítimo” dos jovens.
A proposta gerou reação da Comissão de Direitos Humanos da OAB-PA, que vê no projeto um discurso de preconceito e criminalização da população LGBTQIAPN+. Para a advogada Luanna Tomaz, presidente da Comissão, a argumentação do vereador se baseia em estereótipos e distorções da realidade.
“Para mim, esse projeto é inconstitucional. Ele viola os direitos da população, das crianças e adolescentes e da comunidade LGBTQIAPN+. Além disso, possui vários equívocos. O primeiro é a associação entre paradas LGBTQIAPN+ e outras manifestações culturais com atos sexuais explícitos e o uso de drogas. O projeto nem sequer especifica quais seriam essas manifestações culturais. Curiosamente, ele próprio reconhece que a parada LGBTQIAPN+ é uma manifestação cultural, mas, em seguida, faz essa vinculação preconceituosa”, afirmou Tomaz à CENARIUM.
A advogada também destacou que a proposta interfere no direito das famílias de educarem seus filhos, além de reforçar estigmas contra a comunidade LGBTQIAPN+.
“Isso desrespeita uma luta histórica, que tem nesses eventos um espaço de construção política. Além disso, o projeto atinge o direito das famílias de educarem seus filhos, inclusive no que diz respeito à defesa de direitos e à participação política. Na prática, essa proposta reforça estereótipos e desmerece a luta da população LGBTQIAPN+. Também interfere no direito das famílias de participar desses eventos e apresentar esse debate para seus filhos, marginalizando ainda mais essa comunidade e dificultando o enfrentamento do preconceito”, acrescentou.
O projeto também prevê multas para responsáveis que levarem menores a esses eventos, o que, segundo a advogada, representa um avanço perigoso na perseguição de movimentos sociais. A Comissão de Direitos Humanos da OAB-PA informou que está estudando formas de contestar a proposta.
Histórico de polêmicas
O vereador Zezinho Lima já esteve envolvido em outros episódios de embates com a comunidade LGBTQIAPN+ e movimentos progressistas. Em 2023, quando ocupava um mandato na Câmara Municipal de Ananindeua (CMA), foi alvo de ação do Ministério Público do Pará (MPPA), que solicitou uma indenização de R$ 500 mil por danos morais devido a discursos de ódio contra a população LGBTQIAPN+.
Na época, Lima usou suas redes sociais para atacar a comunidade, alegando que o movimento LGBTQIAPN+ tentava “desvirtuar crianças e adolescentes” e destruir as chamadas “famílias tradicionais”. A ação do MPPA classificou as declarações do vereador como uma forma de incitação à discriminação.
Outro episódio envolvendo o vereador ocorreu quando ele ameaçou denunciar o bar e restaurante Café com Arte, em Belém (PA), após o estabelecimento anunciar que distribuiria 13 barris de chopp gratuitamente caso Bolsonaro fosse preso. O episódio ganhou repercussão nas redes sociais e gerou atritos entre Lima e frequentadores do espaço. O vereador chegou a afirmar que acionaria órgãos de fiscalização para investigar possíveis irregularidades no funcionamento do bar.
Lima também utiliza suas redes sociais para mobilizar sua base de apoio e reafirmar seu alinhamento à extrema direita. Em 2023, chegou a viralizar ao exibir uma tatuagem do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no braço e compartilhar postagens contra o governo petista, acompanhadas da legenda: “Bolsonaro até o fim. Fora Lula!”
Carreira política
Eleito em 2024 com 6.258 votos, Zezinho Lima tem se consolidado como uma das vozes locais mais ativas da oposição ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do governador do Pará, Helder Barbalho (MDB). Formado em Administração e pós-graduado em Gestão de Pessoas, o vereador já atuou na política de Ananindeua, onde foi secretário e vereador antes de assumir uma cadeira na Câmara de Belém.
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Editado por Izaías Godinho
Fonte: Agência Cenarium