Por Paulo Batistella – Ponte Jornalismo
O Brasil teve ao menos 18 casos de feminicídio ou homicídio seguido de suicídio de agentes de segurança pública em 2024. O cenário foi identificado pelo Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (Ippes), que lançou, nesta terça-feira (25/11), a 7ª edição de um boletim sobre o tema, que reúne informações desde 2017. Este foi o ano com maior numero de casos na série histórica da entidade.
Em todos eles, quem tirou a própria vida foram homens. Já as vítimas dos assassinatos foram, em sua maioria, mulheres próximas aos autores — sete esposas e namoradas, três ex-companheiras e uma filha. Segundo o Ippes, já é um padrão esse tipo de caso ser marcado por gênero e vínculos íntimos.
A violência doméstica se mostrou presente mesmo nos casos em que homens foram assassinados pelas vítimas de suicídio. Em um deles, um major da reserva matou o porteiro do prédio em que morava, em Recife, e tirou sua própria vida após o funcionário alegar não saber do paradeiro da esposa do agente — que tinha fugido do apartamento do casal após ser agredida pelo marido.
Em outro episódio, um policial militar afirmou no trabalho que iria matar a ex-esposa ao tomar conhecimento de que teria sua arma de fogo apreendida em meio a um processo judicial por já ter agredido a mulher. Um colega de farda decidiu ir ao local de uma audiência do caso, em Arapiraca (AL), onde o agressor pretendia cometer o feminicídio, para tentar intervir, mas também acabou sendo morto. Em outros três casos, as vítimas de assassinato eram colegas de farda do autor, em parte deles após discussões no local de trabalho. E em outros dois episódios foram mortos amantes da esposa do agressor, totalizando 19 vítimas.

PMs e armas de fogo aparecem na maior parte dos casos
O Ippes identificou os casos a partir de um levantamento junto a fontes extraoficiais — como reportagens e relatos de agentes de segurança pública —, método que adota há oito anos. De 2020 a 2024, a entidade também colheu dados oficiais obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI). A sondagem própria, no entanto, tem sido mais efetiva: nos últimos cinco anos, as fontes oficiais relataram 40 feminicídios/homicídios seguidos de morte, enquanto as extraoficiais deram conta de 75 casos.
A organização ainda averiguou que, em 2024, nove dos casos foram protagonizados por policiais militares, o que já era um padrão. Policiais civis apareceram em três deles, e um outro teve um policial penal. Já os demais foram cometidos por guardas municipais, o que destoou da série histórica.
“É importante destacar que esses cinco casos ocorreram em Guardas Municipais situadas em cidades menores. Atualmente, nos dados oficiais só conseguimos captar os casos das Guardas Municipais das capitais, mesmo assim, muitas instituições ainda não categorizam esses dados”, escrevem os autores do Boletim Ippes 2025, ao destacarem a necessidade de qualificar a produção de informações das guardas.
O Ippes também aponta que, em quase todos os casos, os assassinatos foram cometidos com arma de fogo. Somente em um deles, o agressor usou um carro para colidir contra a vítima. Já em outro, não foi possível identificar o instrumento usado. “Esse dado reforça a importância do controle da arma de fogo para os policiais que enfrentam problemas de saúde mental. […] reforçamos que essa estratégia deve ser acompanhada de outras iniciativas, como acompanhamento psicológico e psiquiátrico adequado, conscientização de pares e superiores sobre o adoecimento mental, entre outros”, relatam os autores.
Número total caiu, e registros pouco identificam raça
O número recorde de casos de feminicídio/homicídio seguido de suicídio de agentes de segurança pública contrastou com a queda da quantidade de mortes violentas autoprovocadas dessas pessoas, ainda segundo o Ippes. Em 2024, o Brasil teve ao menos 151 suicídios de policiais, bombeiros e guardas ativos, segundo as fontes oficiais — no ano anterior, tinham sido 179 casos, ou seja, houve uma redução de 16%. Entre os inativos, foram 48 episódios, ante 54 em 2023 — portanto, o número caiu 11%.
Nos últimos cinco anos, foram 782 suicídios de profissionais em atividade. A maioria foi de policiais militares (464), entre os quais negros aparecem com maior frequência (em ao menos 18%). Uma ampla maioria dos casos, no entanto, independentemente da força de segurança ao qual está vinculado, não teve raça e cor da pele da vítima considerada nos registros, quesito ao qual o boletim passou a se ater nesta edição e que o Ippes entende ser fundamental para se construir políticas públicas de prevenção.
“Como combater o racismo e a exclusão como fatores produtores de adoecimento psíquico sem considerar o perfil étnico-racial dos servidores? Quais têm sido os desafios e impasses para realizar o preenchimento do quesito raça-cor?”, questiona a psicóloga Thamires Meirelles em um artigo do boletim.
“[…] a coleta da autodeclaração racial é fundamental para o avançar da sociedade brasileira e deve ser assumida como um compromisso coletivo de todo e qualquer profissional de saúde. Tal prática deve ser incluída na rotina das instituições, uma vez que o não preenchimento do quesito raça-cor viola direitos e invisibiliza demandas complexas existentes. Sem o uso dessa estratégia, não é possível construir dados, tampouco nomear processos sociais e combater violências históricas”, escreve ainda.
Melhora de dados vai orientar políticas de prevenção, diz Ippes
O estudo também reúne dados sobre a disponibilidade de profissionais de saúde dedicados a ajudar os agentes de segurança pública dentro das forças. “[…] encontramos grandes lacunas na disponibilidade desses profissionais, a depender da instituição e da unidade federativa. Reforçamos novamente a carência generalizada de profissionais médicos psiquiatras. Diversas instituições não possuem tal profissional ou possuem poucos profissionais para atender um grande efetivo.”
Além disso, o boletim traz, de maneira inédita, dados sobre tentativas de suicídio de profissionais de segurança pública. Nos últimos cinco anos, foram reportadas 1.474, entre as quais 91% (1.342) envolveram policiais militares. A entidade pondera, contudo, que o número pode estar bem distante da realidade, já que a notificação dessas ocorrências não é obrigatória e ainda pouco disseminada.
“[…] dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçam como a tentativa de suicídio é um fator de risco importante para novas tentativas. Portanto, mapear e mensurar as tentativas é também uma forma importante de prevenção orientada por evidências e pode contribuir para orientar as políticas institucionais de prevenção ao suicídio”, destacam os autores do boletim.
Eles ainda reconhecem que há um longo percurso pela frente para se obter dados fidedignos e acessíveis sobre todas as dimensões do problema, o que tentam impulsionar com a produção do boletim a cada ano. “[Esperamos] que o esforço de coleta e análise dos dados possa contribuir para o desenvolvimento de estratégias de melhoria da qualidade da informação e ações de prevenção e posvenção do suicídio entre os profissionais de segurança pública.”




