Por Cleber Lourenço
A cronologia que marcou a guinada da Câmara dos Deputados em direção à votação da anistia e da chamada dosimetria desmonta a versão propagada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os movimentos registrados entre os dias 5 e 9 deste mês revelam uma articulação que não combina com o discurso de que a decisão teria sido fruto de uma ordem direta do ex-presidente, como afirmou o deputado Sóstenes Cavalcante durante a votação de terça-feira à noite.
Na manhã do dia 5, Flávio Bolsonaro realizou a primeira visita ao pai na unidade prisional. Naquele momento, não havia decisão anunciada por Hugo Motta sobre pautar o projeto. A reunião de líderes em que o presidente da Câmara comunicou a intenção de levar o texto ao plenário só ocorreria no dia 8, por volta do meio-dia. Entre esses dois momentos, parlamentares relataram uma movimentação intensa do PL e do centrão em torno da proposta.
A visita de Flávio ao pai no dia 5 ganha relevância nesse contexto por marcar o momento mais plausível para uma orientação política geral do ex-presidente. Integrantes da bancada entenderam essa diretriz como um recado para que seus aliados atuassem pela votação da dosimetria e pela anistia aos investigados e condenados pelos atos golpistas. A declaração de Sóstenes, que atribui um comando específico a Bolsonaro, é vista no Congresso como um enquadramento político posterior para fortalecer a narrativa de protagonismo do ex-presidente.
A cronologia ganha novo elemento no dia 9, quando Flávio retorna à unidade prisional para outra visita ao pai. Esse encontro ocorreu já com a decisão de Hugo Motta anunciada e com a repercussão gerada pela reunião de líderes. Para parlamentares ouvidos pela coluna, esse segundo movimento funcionou como ajuste de discurso e alinhamento político diante do novo cenário criado em Brasília.
Interlocutores questionam timing de decisão de Motta
A discrepância temporal levanta questionamentos entre aliados e interlocutores do governo. Se a decisão de Motta só foi tornada pública no dia 8, como Bolsonaro poderia ter dado uma ordem específica antes disso? A versão de que o presidente da Câmara estaria executando um comando direto vindo da cela não encontra respaldo nos horários e registros oficiais das visitas.
O que se observa é uma articulação que envolve a pressão do PL, os interesses do centrão em “limpar a pauta” e a conveniência política em reforçar o papel do ex-presidente diante de sua base. Ao transformar uma diretriz genérica em comando preciso, aliados ampliam o peso simbólico de Bolsonaro na condução da agenda legislativa, mesmo em condição de restrição.
Esse padrão tem se repetido em votações sensíveis desde o início da crise. A tentativa de enquadrar os acontecimentos como resultado de uma determinação direta de Bolsonaro atende tanto às expectativas de sua base quanto ao esforço de lideranças do PL em manter a narrativa de unidade e controle político. No entanto, os registros objetivos dos dias 5, 8 e 9 revelam que a engrenagem envolveu mais camadas, decisões paralelas e interesse convergente entre diferentes atores dentro e fora do Parlamento.




