Vivian Mesquita: O ataque ao voto feminino não é um deslize


Há ideias que não morrem. Elas apenas esperam o momento certo para voltar disfarçadas de opinião, estatística ou “análise política”. Foi exatamente isso que fez Paulo Figueiredo ao afirmar que mulheres “votam mal”, sugerir que mulheres solteiras seriam um problema eleitoral e insinuar que mulheres casadas tendem a votar melhor porque acompanham seus maridos.

Não foi um deslize.

Foi a manifestação de uma visão de mundo que enxerga a participação política das mulheres como um erro histórico.

Toda vez que um grupo social passa a votar de maneira diferente da desejada pelos donos do discurso, surge alguém disposto a colocar em dúvida o direito desse grupo de participar da democracia. Não porque tenha provas de fraude ou ilegalidade, mas porque o resultado das urnas não foi o desejado.

Se as mulheres votam diferente, o problema não está nas ideias ou no projeto político do candidato. Está nas mulheres. A democracia deixa de ser um espaço de convencimento e passa a ser um sistema em que determinados cidadãos seriam “bons” ou “maus” eleitores, e esse pensamento não é novo.

Durante décadas, os opositores do sufrágio feminino diziam que mulheres eram emocionais demais, manipuláveis demais e incapazes de compreender política. Cem anos depois, o argumento mudou, mas continua carregando o mesmo preconceito e viés de dominação. Agora não se diz que elas são incapazes de votar. Diz-se apenas que “votam mal”.

Nos Estados Unidos, setores da extrema direita religiosa passaram a defender ideias como o chamado “voto familiar”, segundo o qual o voto da família deveria ser exercido pelo marido, considerado o chefe do lar. Outros influenciadores chegaram a defender abertamente a revogação do direto feminino ao voto. Essas propostas continuam minoritárias, mas deixaram de ser impensáveis e passaram a circular com naturalidade em determinados círculos políticos e religiosos.

É exatamente assim que ideias autoritárias avançam.

Elas não chegam dizendo que pretendem acabar com a democracia. Começam escolhendo quais cidadãos merecem menos voz. Hoje são as mulheres.

Ontem foram os negros.

Toda experiência autoritária começa estabelecendo uma hierarquia entre cidadãos. Há quem mereça decidir.

E há quem devesse apenas obedecer. É por isso que a fala de Paulo Figueiredo merece repúdio. Não porque tenha ofendido as mulheres, embora tenha feito isso, claro. Mas porque ajuda a normalizar a ideia antidemocrática de que direitos políticos dependem da qualidade do voto que alguém atribui ao outro.

Esses mesmos grupos que vivem repetindo que lutam pela liberdade parecem aceitar a liberdade apenas quando ela produz o resultado que desejam. Não é coincidência. A misoginia sempre foi uma ferramenta útil para movimentos extremistas. Ela ajuda a preservar hierarquias, concentra poder nas mãos dos homens e transforma igualdade em ameaça.

É também por isso que a frase de Paulo Figueiredo precisa ser levada a sério. Ela dialoga com um movimento ideológico internacional que tenta reembalar velhas ideias autoritárias sob o discurso da defesa da família, da tradição e dos valores cristãos.

A história ensina que nenhuma democracia perde direitos de uma só vez. Ela perde aos poucos. Primeiro surgem intelectuais explicando por que determinado grupo “vota mal”. Depois aparecem líderes defendendo que esse grupo tenha menos influência. Por fim, alguém conclui que talvez esse grupo nem devesse votar.

É assim que ideias perigosas deixam de parecer absurdas

E passam a parecer discutíveis. A democracia parte do princípio simples e poderoso de que todos os cidadãos têm o mesmo direito de decidir os rumos do país, independentemente de sexo, religião, renda ou preferência política. Quem começa a escolher quais votos são legítimos já não está discutindo democracia. Está discutindo quem merece participar dela. E esse sempre foi o primeiro passo de todo projeto autoritário.





ICL – Notícias

Congresso aprova spray de pimenta para defesa pessoal de mulheres

Laura Scofield e Bárbara Sá  (Folhapress) – O Senado aprovou nesta terça-feira (30)...

Amazonas Repórter

Tudo